Rawi Hage – Um Livro Por Dia



Roleta russa, em Beirute

Dez mil bombas sobre Beirute. Dez mil uísques a queimar gargantas. Dez mil agulhas espetadas nos braços. Dez mil bofetadas. Dez mil charros. Dez mil voragens de sexo. Dez mil ondas. Dez mil, e mais, mortos. Dez mil lágrimas de sangue. Com a cadência lírica de uma litania, com humor e violência, em 2006, o libanês Rawi Hage (44 anos, emigrado no Canadá desde 1992) escreveu o seu primeiro romance directamente em inglês. Fê-lo para expurgar a memória dos nove anos que viveu da guerra civil no Líbano, no início da década de  80. O livro acaba de receber o prémio IMPAC Dublin 2008, passando a perna a candidatos como Philip Roth, Margaret Atwood, Thomas Pynchon ou Cormac MacCarthy. A Civilização edita-o com o título Como a Raiva ao Vento. Mas o título original, De Niro’s Game, evoca a cena do filme O Caçador em que o actor americano joga à roleta russa com uma arma.

Numa cidade cuja companheira é o pó, dividida entre forças cristãs ou muçulmanas, por sacos de areia e snipers, milícias e civis indefesos. De mota, o depósito cheio de gasóleo roubado, o adolescente Bassam Al-Abiad, que trabalha no porto a manobrar o guincho, corta as ruas adormecidas. Acompanha-o o melhor amigo de infância, o orfão George «de Niro», empregado numa espelunca com máquinas de póquer. «Conduzia por ruas com lampiões partidos, paredes cobertas de buracos de balas e sangue derramado que se transformara em nódoas escuras nos passeios empoeirados por limpar. Conduzia e sentia sangue nas veias, convalescença e vento fresco no peito.» Como se vomitasse o cenário de guerra, Bassam narrará em três partes o percurso até à fuga para Paris. O júri do IMPAC apontou: este explosivo «enredo visceral» não tem «nenhuma resolução fácil, nenhum final redentor».

Uma bomba acaba de matar o pai. Em breve, acontecerá o mesmo à mãe. Bassam está sozinho, ainda mais quando George integra uma das milícias mais poderosas e lhe rouba a namorada, Rana. Só pela efabulação, conseguirá escapar aos esquemas, à tortura, às traições, às chacinas. Mas a morte, Bassam nunca a conseguirá tirar dentro de si. Porque, em Como a Raiva ao Vento, matar ou ser morto são formas de suicídio. E o suicídio, como o definiu Camus, é o «único problema filosófico verdadeiramente sério».

Como a Raiva ao Vento, Rawi Hage, Civilização Editora, 284 págs.

SOL/07-08-2008 © Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

0 visualização
FM_2_%C3%82%C2%A9_Joa%C3%8C%C2%83o_Franc

Contato

Skype name: melofili

  • Facebook
Stacks%2520Of%2520Paper_edited_edited.jp

©2020  Filipa Melo | Escrita de Ficção