Pelo menos, penso o que digo


— Estás a precisar de um corte de cabelo – comentou o Chapeleiro. Há já muito tempo que fitava a menina com grande curiosidade, e foi a primeira coisa que disse. — Devias aprender a não fazer reparos pessoais — disse Alice, um tanto bruscamente — É uma grande falta de educação. O Chapeleiro abriu muito os olhos ao ouvir estas palavras, mas limitou-se a inquirir: — Porque é que um corvo se parece com uma secretária? «Vá lá, parece que agora vamos divertir-nos um bocado!», pensou Alice. «Ainda bem que começaram com as adivinhas.» — Penso que consigo achar uma resposta — acrescentou ela, em voz alta. — Então devias dizer o que pensas — continuou a Lebre de Março. — E digo — apressou-se Alice a responder —… pelo menos, penso o que digo… é a mesma coisa, sabes? — Não é nada a mesma coisa! —protestou a Lebre de Março — Ora, nesse caso também podias dizer que «Vejo o que como» é a mesma coisa que «Como o que vejo»! — E bem podias dizer — acrescentou a Lebre de Março — que «Gosto do que tenho» é a mesma coisa que «Tenho o que gosto»! —Bem podias dizer — intrometeu-se o Arganaz, que parecia falar a dormir — que «Respiro enquanto durmo» é a mesma coisa que «Durmo enquanto respiro»! — Para ti é a mesma coisa — lembrou o Chapeleiro, posto o que a conversa esmoreceu, e o grupo fez um minuto de silêncio, enquanto Alice pensava em tudo o que se podia recordar acerca de corvos e secretárias, e que não era muito.

in Alice no País da Maravilhas, tradução (excelente) de Margarida Vale de Gato, Relógio D’Água

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