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JOSÉ SARAMAGO – em 1998





Há uma incógnita na sua biografia que é a razão do interregno entre a publicação de Terra do Pecado, em 1947 [quando tinha 24 anos], a de Poemas Possíveis e, em 1977, a do segundo romance, Manual de Caligrafia e Pintura.

Em 1947 eu publico esse romance, cuja história está contada, de modo um pouco irónico, no que chamei «Aviso para a reedição», em 1997. Na sequência desse livro, ainda escrevi outro romance, Clarabóia, que nunca chegou a ser editado. Um amigo meu, o pintor Figueiredo Sobral, enviou-o para a Empresa Nacional de Publicidade, proprietária do Diário de Notícias, para ver se o queriam publicar. Claro está que eles não o quiseram, nem nunca mais me disseram nada. Eu próprio esqueci-me completamente dele… Quer dizer, não me esqueci completamente, mas deixei-o estar, achei que não se perdia grande coisa. Até que, há uns oito ou nove anos, recebi uma carta da Empresa Nacional de Publicidade dizendo que, reorganizando o arquivo, tinham encontrado aquilo e até queriam publicá-lo. Eu fui lá buscar o livro e, evidentemente, não os deixei publicá-lo. De qualquer forma, há depois esse longo período durante o qual eu não escrevi praticamente nada. A minha resposta para isso é muito simples. Achei que não tinha nada que valesse a pena dizer. Não é porque o livro tenha recebido más críticas: não recebeu nem más nem boas…

Não foi o choque perante a indiferença da crítica?

É preciso não esquecer que estamos em 1947. Não se poderia esperar grande coisa quanto à recepção de um primeiro livro de uma pessoa desconhecida. Aliás, até tive duas ou três críticas simpáticas, sem mais e acabou. De qualquer forma, não tinha nenhum motivo para deixar de escrever, porque também não estava a contar que o primeiro livro fosse um êxito e que eu, transportado, digamos, nas asas da fama, pudesse depois não fazer mais nada do que continuar a escrever, escrever, escrever… Não é isso.

A escrita nessa altura não tinha ainda a importância que viria a ter na sua vida?

A questão não é essa. Suponho, e creio que naquela altura devia estar já consciente disso, que não tinha grandes coisas para dizer. É certo que isto parece uma contradição uma vez que depois tive coisas suficientes para dizer quando escrevi um segundo romance. Mas, no fundo, nada daquilo me convencia. Como os factos são os factos e não vale a pena discutir muito com eles, o facto é que eu estive vinte anos sem escrever e que não me arrependo nada disso. Se me pergunta: «Mas você não acha que podia ter continuado a escrever?» Podia, mas se calhar não tinha valido a pena.

Quando se decide a escrever o Manual…

Antes disso há os livros de poesia, os livros de crónicas (para o Diário de Lisboa e para o Jornal do Fundão). Quando chega a Revolução, eu tinha meia dúzia de livros publicados que não tinham importância por aí além… e depois em 1977… Porque há aqui uma coisa que não pode ser esquecida, um dado que eu considero fundamental na minha vida. Em 1975, depois do 25 de Novembro, fico desempregado. Tinha cinquenta e alguns anos.

E toma a decisão determinada de que a escrita será o seu caminho.

Recuso-me a romantizar as coisas. Saiu há pouco tempo na revista do El País uma entrevista onde explico a minha relação com a escrita. Não é uma paixão. Não é dizer: «Se eu não escrevo, morro.»

É porque tem que ser?

É simplesmente porque entendo que tenho umas quantas coisas para deixar ditas e reconheço, ou penso, ou quero acreditar, que tenho talento suficiente para as dizer, capacidade expressiva para deixá-las claras e evidentes, tão evidentes e tão claras quanto eu possa. O que eu queria que compreendesse bem é que eu não idealizo o meu trabalho. Não romantizo o facto de ser um autor, de ser um escritor.

De alguma maneira, idealizou a sua vida?

Nunca idealizei a minha vida, da mesma maneira que nunca tive ambições, nunca projectei nada, nunca disse: «Tenho de fazer isto para chegar àquilo.»

A sua filha disse-me: «Acho que o meu pai se propunha fazer uma coisa em determinado momento e tentava fazê-la bem feita.» E que essa é a única explicação para as coisas que fez.

E fosse qual fosse a coisa que eu estivesse a fazer… Evidentemente que estar numa editora (como eu estive, dez ou doze anos, na Editorial Estúdios-Cor) a fazer os livros dos outros não é a mesma coisa que estar a trabalhar na oficina de mecânica nos serviços industriais dos Hospitais Civis de Lisboa. Mas o que quero reforçar é que nunca tive qualquer ambição, tal como nunca considerei nenhum momento da minha vida como um degrau para chegar a qualquer coisa. Digamos que os degraus estavam todos à mesma altura… Eu passava de uma actividade à outra, mas sem colocar diante de mim a ideia de que: «Isto agora serve-me para chegar àquilo…»

Sem dizer: «Esta é a minha missão para…»

Nem sequer é uma missão… É o meu trabalho. É o trabalho que eu tenho a sorte de ter, é o trabalho que neste momento posso ter. Há que levar em conta que eu não podia ter grandes ambições: não tive formação universitária, não era engenheiro, nem arquitecto, nem nada disso…

A meio da minha pesquisa comecei a chamar «o mistério Saramago»…

Não há mistério nenhum.

… ao retrato de alguém que nasce numa família humilde…

E depois sobe a  vida a pulso…

… que luta para chegar a qualquer coisa…

... até chegar ao Prémio Nobel. Que vida extraordinária que este senhor teve!…

Não, não é até chegar ao prémio Nobel. Chego até aos vinte e tal anos, depois há a descrição das suas leituras na Biblioteca Municipal das Galveias, da sua fúria de procurar saber… E aí há uma vontade inegável, por mais pragmática que seja.

Mas é apenas a vontade de qualquer ser humano com aspirações de chegar a isto ou aquilo, ou até mesmo sem aspirações nenhumas. É a vontade de saber aquilo que não se sabe, de conhecer aquilo que não se conhece, sem que isso signifique que, num segundo, terceiro, quarto ou décimo tempo, vá levar a pessoa a qualquer outra coisa. Não, não é isso. Simplesmente, eu tinha desde criança um interesse muito forte na leitura — com sete ou oito anos, lia o jornal de uma ponta à outra, isso leva-me a dizer muitas vezes que aprendi a ler no Diário de Notícias… Mas, repare, tudo isto tem que ser visto à luz de um determinado meio social e da ausência de qualquer projecto de vida. Comigo tratou-se apenas de ir vivendo cada dia, nas condições de cada dia, sem que isso significasse que havia qualquer projecto de futuro, quer por parte da minha família, quer da minha parte. Muitas vezes, tratava-se de arranjar o emprego de que precisava porque eu não podia estar a viver, como se dizia na altura, «às sopas da família». Claro está, as sopas eram aquilo que não havia. Portanto, quando chegasse à idade adulta ou perto disso, eu tinha que ter uma vida e responsabilidade própria, como naquela altura tinha. Tinha de ser assim…

A partir do momento em que a escrita passa a ser a sua vida, existe já uma afirmação evidente. Ou desmistifica…

Tenho que desmistificar. Porque não se trata de uma necessidade de afirmação perante o mundo: «Aqui estou eu e vejam como estou a fazer…»

Mas havia, pelo menos, uma necessidade de reconhecimento do que fazia?

A necessidade de reconhecimento é uma coisa que está implícita em toda a nossa relação familiar, afectiva ou social. Todos queremos que reconheçam aquilo que somos. O que eu queria deixar perfeitamente claro é que não houve nunca — eu compreendo que isto custa a acreditar…

Custa.

Pois. Mas o que eu quero dizer é que nunca tive nenhuma ambição na vida. Nenhuma ambição na vida!

Num dos Cadernos de Lanzarote, escreve: «Não fui uma criança alegre.» Depois, quando se fala de si, fala-se muitas vezes de uma melancolia que vem de longe….

É simplesmente uma questão de temperamento.

Ou quando diz qualquer coisa como: «Eu tenho um optimismo intrínseco que contraria o meu pessimismo congénito»…

Que é uma contradição. Muitas dessas coisas que dizemos em relação a nós próprios são apenas frases que fazemos o possível por que soem bem, às vezes até queremos que elas tenham graça… Mas, elas têm de ser postas em confronto com a realidade, têm de ser revistas, ajustadas.

Então o que é que posso tomar a sério no registo de um homem que não é de muitas alegrias?

Não sou é de muitas exteriorizações. Não exteriorizo facilmente a alegria. Exteriorizo mais a emoção que, a certa altura, já não é possível conter. A alegria, o contentamento, são em mim uma espécie de fogo brando.

É um homem que se controla muito, não é?

Não me controlo muito, eu não preciso…

Num dos Cadernos, confidencia a sua paixão pela banda desenhada, pelo Calvin, pelo Hobbes, pela Mafalda, mas diz que, quando há pessoas por perto, disfarça esse seu olhar interessado. Porquê?

Nós, os adultos, temos uma certa relutância, um falso pudor quanto à banda desenhada. Mas uma pessoa que tem reputação de ser uma pessoa muito séria, muito grave — supondo que é essa a minha reputação…

Suponho que seja; a maioria das pessoas fala de si assim.

Se apanham essa pessoa a ler uma banda desenhada… E a verdade é que, em todos os jornais em que pego, vou sempre às bandas desenhadas. Nessa descrição de mim mesmo há um jogo, um aproveitamento literário de situações em que a pessoa começa a brincar consigo mesma. Eu aí estou a brincar comigo mesmo.

Brinca muitas vezes consigo mesmo?

Não, não brinco. Não me tomo é a sério. Ou melhor, eu tomo-me muito, muito a sério. Mas, por outro lado, sou capaz de uma grande frieza de auto-análise, que provavelmente poucas pessoas têm.

Dá ideia de ser um homem com algumas paixões, com amizades, mas que segue sempre o seu caminho… Faz-me lembrar quando descreve a sua subida à Montanha Branca, e vai sozinho, e vai com aquele fito… Poderá dizer que não existe esse fito determinado, mas há sempre um homem que caminha numa determinada direcção, solitário e tenaz.

Isso não há dúvida nenhuma. Desde criança, sempre fui uma pessoa muito, muito solitária. O que não é incompatível com as amizades, os afectos, o amor… Mas, por detrás de tudo isso, há uma sensação, um sentimento de solidão com o qual vivo há muitos anos. No fundo, todos somos solitários. Eu tenho esse sentimento de uma solidão assumida, reflectida, total.

Explique-me, por favor, esta frase, de um dos Cadernos: «Não é pequena contradição ser tão pouco dotado de sentimento familiar e ter tanta necessidade da família.»

No fundo, isso é um grito da infância. É o sentir-se só na família que se tem. Provavelmente essa é a raiz de muitos dos meus comportamentos de adulto.

Fala muitas vezes, nos Cadernos e nas entrevistas, da sua avó Josefa e do seu avô Jerónimo como influências importantes.

Aí há também uma forte idealização. É certo que falo menos dos meus pais, mas eu creio que isso não é de estranhar. Em termos de relação, pelo menos naquele tempo, avós, netos, era qualquer coisa de muito mais forte.

Sentia-se sozinho naquela família?

De uma certa maneira, sim. Como é que eu posso explicar isto? No fundo, eu estava tanto com eles como era natural estar, com tios, com primos, com pais, com avós, tudo mais. Mas também é certo que eu me sentia só…

Diferente deles?