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David Grossman | Entrevista

David Grossman: «Sou uma pessoa secular, muito, muito judia.»

David Grossman costuma dizer que não aceita considerar a sua vida interior e criativa como uma zona de guerra. Mas foi nos despojos da Shoá, do conflito israelo-palestiniano e do luto por um filho morto no comando de um tanque de combate que o escritor encontrou as palavras mais fortes e inventivas. Capazes de vencer o silêncio e atravessar o tempo, como só o faz a grande literatura.

David Grossman, nascido em Jerusalém em 1954, é um dos quatro gigantes da literatura israelita [a par de Amos Oz, Aharon Appelfeld e Avraham B. Yehoshua). Filho de um condutor de autocarros que se converteu em bibliotecário, em criança e adolescente encontrou nas histórias de Sholem Aleichem e de Franz Kafka um escape para a solidão. Cumpriu os quatro anos de serviço militar, durante os quais conheceu a sua futura mulher, formou-se em filosofia e trabalhou na rádio nacional durante duas décadas, até se demitir por ter sido impedido de noticiar a declaração de independência do Estado da Palestina (1988).

Ativista político, desencantado com a política sionista, tornou-se uma das vozes mais fortes de apelo à reconciliação num país que de «Estado das vítimas» se transformou em interlocutor ensurdecido pelo ódio e pela suspeita perante o inimigo. Com os seus romances e ensaios (ver caixa), Grossman compôs um panorama único de Israel desde a sua fundação, quando à noite as ruas ainda se enchiam de gritos dos sobreviventes da Shoá, até à atualidade, quando o bruaá cosmopolita e artístico procura sobrepor-se à experiência radical da perda e da violência.

Do shtetldo leste europeu até Israel contemporâneo, passando pelo cenário de assimilação norte-americano, talvez a única caraterística comum a todos os autores de literatura judaica seja o conflito latente entre a afirmação individual do autor e a fidelidade à memória e à pertença a uma tradição. Concorda?

Essa tensão foi uma constante ao longo de toda a história dos judeus e tornou-se premente desde o século XVIII e o Iluminismo Judaico [movimento Haskalá; determinou o estudo crítico moderno dos textos fundadores, a assimilação no mundo secular europeu, o aparecimento de movimentos políticos de emancipação, o renascimento do hebraico e a divisão do judaísmo asquenazi em diversos movimentos religiosos e denominações; dele surgiu a cultura judaica secular, que privilegia a história e a identidade como elementos unificadores, em detrimento da religião]. Nesse contexto, Israel representa um desafio particular: é uma sociedade moderna, sofisticada, virada para o futuro, mas, ao mesmo tempo, alberga muitos fundamentalismos e conservadorismos, um enorme peso dado à religião. Como conciliar tudo isto? Não conseguiremos resolver estas contradições enquanto não tivermos a paz. Porque, quanto mais desesperadas se sentem as pessoas, mais elas se viram para a religião, sobretudo nas suas manifestações mais herméticas. É um círculo vicioso. Quanto menos paz tivermos, mais fanatismos teremos, o que, por sua vez, compromete qualquer solução secular de compromisso.

O que é que Israel retira hoje do judaísmo?

Há grupos que retiram apenas os elementos mais beligerantes e racistas. Mas também há outros que querem absorver de facto a pluralidade e a iluminação contidas no judaísmo. Eu sou uma pessoa secular, muito, muito judia. Sinto uma fortíssima pertença ao judaísmo.

Que se traduz em quê?

Na maneira como vejo o mundo, no meu humor, na afinidade que sinto com o destino judaico, com a Shoá, com a língua hebraica. É algo muito emocional; pertenço ao judaísmo tal como pertenço à minha família. Escolhi viver em Israel porque é ali que o judaísmo está mais presente, em todas as suas contradições e facetas. Todas as semanas, desde há 25 anos, faço o que os judeus fizeram ao longo da sua história: na companhia de duas pessoas, leio a Bíblia, com a ajuda de uma lupa, estudo-a e discuto-a. É frequente essas serem as horas mais significativas da minha semana.

Revelando o quê?

O modo como fomos criados enquanto povo. A personalidade dos nossos pais fundadores: Jacó, Abraão, Isaac. Como eles estão presentes na política atual. A forma como definimos a nossa diferença em relação aos outros, tornando-a indecifrável por eles. Por vezes, a maneira como desejamos sentir-nos únicos, excomungados, entrincheirados na nossa cultura e na nossa maneira de ver o mundo.

Tal qual como numa injoke [anedota perceptível apenas pelo grupo que a cria e sobre o qual versa]?

Sim, sim. Quando leio a Bíblia, exponho-me à luz cristalina da linguagem bíblica. Aprendo muito com as histórias e as personagens da Bíblia. De facto, sou muito judeu, e muito israelita também.

Mais um do que outro?

Não quero sequer decidir o que sou mais: se judeu, se israelita. Faço parte daquela realidade tão tempestuosa e escolhi viver ali, apesar de ter tido muitas oportunidades, e muito tentadoras, de me instalar no exterior. Quero viver a minha vida num sítio com relevância para mim. Consigo descodificar os códigos de Israel e dos israelitas, mesmo quando eles me esfrangalham os nervos. Em Israel, fazem-se coisas terríveis.

Acha que, se as compreender, consegue transformá-las?

Não sei se consigo transformá-las, mas pelo menos identifico a raiz de certos comportamentos. Quero viver uma vida relevante e Israel dá-me essa oportunidade, mesmo se tantas vezes me enfureço com as atitudes do governo, do exército, das comunidades civis, dos fundamentalistas.

O problema não será ver-se Israel como o fim da diáspora e não como uma etapa de um caminho que prossegue?

Sabemos que qualquer fim é sempre o início de outra coisa! Israel está em permanente contato com a diáspora. Israel não é um fim; é apenas um veículo para que os judeus possam viver uma vida normal, da qual foram privados nos últimos dois mil anos. É curiosa a sua pergunta. Na verdade, muitos chamam a Israel a Terra Prometida, mas o correto é Terra Sempre Prometida. Trata-se de uma promessa permanente, nunca atingida.

Quando acabei de reler Ver: Amor, fiquei a pensar num paradoxo: o realismo não é suficiente quando se escreve sobre situações extremas. Passou-se assim com a literatura sobre a Shoá. Após a primeira geração de escritores-testemunhas, as gerações seguintes tiveram de recorrer à imaginação, para colorir as primeiras imagens a preto e branco.

Não creio que colorir seja um bom termo. Em Ver: Amor, usei o realismo mágico, não para colorir, mas para analisar a situação sob um outro ponto de vista. O romance corresponde a quatro tentativas muito diferentes de escrever sobre a Shoá: do realismo de Momik à corrente de consciência e realismo mágico de Bruno, ao registo quase teatral da relação entre Wasserman e Niegel e, no final, ao estilo enciclopédico ou semi-científico. Havia uma quinta parte, da qual desisti, porque senti que quatro eram suficientes para mostrar a impossibilidade de escrever sobre a Shoá. Sabemos que vamos falhar, mas temos de continuar a tentar. Por vezes, penso que olhar para a Shoá assemelha-se a olhar diretamente para o sol.

La Rochefoucault disse que «para o sol e para a morte, não se olha de frente».

É belíssima a frase. É algo que eu sinto. De uma forma muito forte… Senti-o enquanto escrevia sobre a Shoá e senti-o ao escrever Até ao Fim da Terra [ensombrado pela morte do filho, Uri Grossman, de 20 anos, abatido por um míssil do Hezbollah, em Agosto de 2006, poucas horas antes do cessar-fogo entre Israel e o Líbano]. Há coisas para as quais não podemos olhar de frente porque nos cegam. Ainda assim, porque sou escritor, tenho de olhar para elas. Essa é a principal missão de um escritor: não fugir à radiação ardente da Shoá ou de um luto pessoal…

O escritor que escreve sobre a Shoá tem de aceitar que jamais conseguirá dizer tudo e que jamais será completamente compreendido pelos outros.

Concordo. E, no entanto, os dois, escritor e leitores, terão sido parceiros na tentativa humana de compreender algo. Não tentaram evitá-lo ou negá-lo. Assumiram esse fardo e toda a tristeza nele envolvida e tentaram olhar a Shoá nos olhos. Foi por isso que escolhi pôr Momik no início do livro, apesar de essa ter sido a última parte a ser escrita. Senti que precisava de captar o modo como uma criança tenta entender a Shoá. Porque, mesmo se formos adultos e tivermos lido todos os livros, visto todos os filmes, estudado todas as abordagens históricas, subsistirá sempre uma pequena parte de nós que, tal como acontece com as crianças, é incapaz de compreender.

Estamos dentro da radiação, mas não conseguimos dar-lhe uma forma?

Perante as perguntas principais, somos crianças indefesas, mesmo que sejamos adultos. Como é que alguém foi capaz de fazer uma coisa assim?

É inegável que pensar a Shoá é um fardo muito particular. Mas não acha que, num certo sentido, é também um ato que envolve algum masoquismo? Escarafunchamos na tristeza e no horror, como se sofrêssemos de uma espécie de síndroma do sobrevivente (Elie Wiesel disse: «Estou vivo, logo sou culpado»), e não conseguimos parar. Quanto mais percebemos que não conseguimos compreender, mais obcecados ficamos.

É verdade. Haverá sempre quem explore esse lado masoquista… Pode-se abusar de tudo, e também da Shoá. Mas… [silêncio longo] Não há «mas»! Penso que existem três formas de tentar superar este fardo. Uma, é a via científica: procurar compreender como aconteceu. A outra é a das memórias dos sobreviventes. A terceira é a via da arte. Ora, haverá cada vez menos sobreviventes e a via científica extinguir-se-á em breve (são conhecidos praticamente todos os factos que havia para conhecer). A expressão artística será a principal forma de gerar empatia nas gerações futuras em relação à Shoá.

Em Ver: Amor, Bruno sente uma espécie de rebelião que o expulsa de si mesmo, enquanto Momik encara a perda como uma forma de resgate de si mesmo. Trata-se do mesmo movimento paradoxal: de tentativa de libertação e de resgate…

… de esquecimento e de rememoração, de pertença e de exclusão. Há um momento em Falling Out of Time [de 2014, ainda não editado em Portugal] em que o pai enlutado se pergunta como poderá um dia recordar-se sem sofrer. Como separar a memória da dor? A questão coloca-se tanto no luto individual como no luto coletivo. Outra questão é: como recordar sem ficar paralisado pelas memórias? E como esquecer, no sentido de deixar ir? Como esquecer sem matar os que já morreram e como lembrar sem morrer por causa disso?

Neste último romance, parece ter encontrado a resposta na poesia.

Uma das personagens do livro diz: «A poesia é a linguagem do meu luto.» Foi o que aconteceu comigo. Não o planeei, não o preparei, mas de repente passei da prosa à poesia, instintivamente. A poesia era de facto a forma mais precisa para descrever o que eu sentia. Não me pergunte porquê. Não sei responder. A minha mulher tem uma teoria: diz que a poesia está mais próxima do silêncio. Gosto dessa ideia.

Afirmou algures que, durante a Shivá [período de sete dias de retiro de luto, tradicionalmente observado pelos judeus], a dor como que o fossilizou.

A Shivá é uma grande invenção judaica. Todas as pessoas que conheceste de uma forma próxima desde a escola primária, enfim, desde sempre, vêm visitar-te, estar contigo durante uma ou duas horas, abraçar-te fisicamente. Durante uma semana, a tua vida toda desfila diante de ti. Milhares de pessoas vieram visitar-nos, a mim e à minha mulher, durante a Shivá pelo Uri. No dia seguinte, regressei ao meu espaço de trabalho e à escrita de Até ao Fim da Terra, que, antes disso, estava prestes a terminar. Foi muito difícil. No início, limitei-me a forçar-me a estar fechado, sozinho. Depois, aos poucos, dei por mim a escrever e a dar aos meus personagens calor, vitalidade, senso de humor, atração sexual… vida! Percebi que havia vida dentro de mim e que podia dá-la aos outros.

Nos seus livros, está muito presente a ideia de que a morte é o mais escandaloso dos escândalos.

[ri] Claro, como é possível concebermos que vamos morrer? Temos tanta vida dentro de nós e, afinal de contas, a vida é tão boa — pelo menos se considerarmos a alternativa. Existe tão pouco tempo para compreendermos e conhecermos tanta coisa que há para compreender e conhecer… Sinto desde sempre que só consigo compreender as coisas verdadeiramente importantes da vida, se escrever sobre elas. E já sei que não terei tempo para escrever sobre a maior parte das questões mais importantes. Nem que vivesse cem anos… Sim, tudo o que tem a ver com a morte é escandaloso.