Contos

A água

Ao Fernando Caetano

Tinha a certeza. Desde sempre acreditara que, com o passar dos anos e a aproximação da morte, as pessoas mirram, perdem volume, encolhem. Quase como se pedissem licença antecipada para partirem, deixando um espaço vazio. Retirando-se com delicadeza, reduzindo aos poucos a sua presença, o seu lugar.

Foi nisso que pensou quando o viu. Estava ali a prova. E tão estranha surgiu a constatação, tão contraditória com o medo que de si se apossava, que se descobriu durante uma eternidade olhando o outro, medindo-o em silêncio, com a boca um pouco aberta, como acontece quando um pensamento invade tudo e se sobrepõe à consciência do próprio corpo.

O outro estava ali, à sua frente, e ele só conseguia olhar-lhe os pés, enfiados, quase boiando, nuns chinelos de quarto coçados e desbotados. Escutara-os a arrastarem-se pelo corredor, enquanto se aproximavam da porta, antes do estremecer da chave rodando na fechadura e do tilintar da corrente ao ser colocada sobre o suporte.

É verdade que lhe havia visto primeiro os olhos, por entre a frincha aberta para o escuro. Surpresos, receosos, por fim — seria só impressão sua? — quase indiferentes. Ouvira-o tossir enquanto o sentia passar mais uma vez a corrente sobre o suporte, soltá-la e em seguida abrir a porta. Conseguira mesmo encará-lo por uns breves segundos e observar que tinha a barba por fazer, talvez há três dias, e que os cantos da boca estavam sujos de migalhas que supôs serem de pão;  provavelmente interrompera o jantar e não tivera tempo para a limpar.

 

Mas em nada disto se conseguia concentrar agora. Agarrava-se ao que imaginara ainda a porta estava fechada, e ele parado do lado de fora, demorando um tempo a tocar à campainha, depois apertando-a com insistência. Atemorizavam-no os momentos de espera antes do início de outro momento, ao qual sabia ter de reagir. Preparara-se sopesando o saco de plástico suspenso da mão direita, a esquerda acariciando a aspereza da fazenda das calças. Sentia-a ainda, procurando esquecer-se de que tinha de fazer um gesto, qualquer gesto que o obrigasse a parar de pensar. Ou de dizer alguma coisa, depressa, porque o via por inteiro à sua frente e tinha medo de novo.

 

— Sou eu. Trouxe-lhe umas coisas.

 

Disse-o com uma firmeza desconhecida na voz.

O outro soltou uma tosse seca. Pôs nos olhos dele os seus, turvos pelas cataratas — não se lembrava de serem tão claros, tão aguados… quanto veriam ainda? —, com a mão esquerda puxou sobre o pescoço a gola do roupão, e apertou mais a outra mão contra o rebordo da porta. Ele notou que ela tremia, parecendo suportar o peso do corpo todo.

— Estava a fazer o comer — resmungou no tom áspero que demasiadas vezes o intimidara mas que ele, tantos anos passados, queria imaginar oco, significando antes “sê bem-vindo” ou “estava à tua espera”, ou “tardaste”.

Ele empurrou o próprio corpo para dentro, quase empurrando também o outro e forçando-o a soltar a porta, mas como numa dança lenta, redefinindo-se os dois, numa posição diferente, num lugar diferente.

 

Foi quando se voltou para fechar a porta, curvando-se sobre a fechadura, que ele se apercebeu das suas costas curvas, e da magreza. Uma magreza de velho; a magreza de um corpo inofensivo. Uma magreza que o sossegava.

 

Seguiu-o pelo corredor, dando-lhe tempo para andar à frente, com passadas curtas, enquanto os olhos se habituavam à escuridão cortada pela luz fosca do candeeiro de parede e o faziam parar e rever o tapete gasto, descorado, com manchas de terra,  o aparador e o calendário pendurado sobre ele (1982, e os mesmos dois gatos enrolados à volta de um novelo de lã, sobre um fundo azul-bebé), o bengaleiro amarelo, de metal. 

“Repugna-me este mau gosto; sempre me repugnou”, gostava de ter sido capaz de dizer. Mas não disse. De repente, teve vontade de fugir, de descer as escadas e sair para a rua, demasiado estreita, demasiado suja, de se resguardar dentro do carro e acelerar, deixar para trás aquele bairro feio e degradado, aquela cidade que crescia como uma erva daninha, sem método, sem sentido estético, fundindo-se com a desordem do mar que a abraçava, gigante, incontrolável. Entrar na autoestrada o mais rápido possível, sossegando-o a regularidade das linhas marcadas no chão, a assepsia da paisagem, o regresso à sua vida, longe dali, para sempre. Esquecer como esquecera até àquele dia, até a morte o fazer lembrá-lo só mais uma vez, a última, em silêncio, em paz. Libertar-se.

Mas o outro entrara já na cozinha. E ele via-o sentar-se, com esforço, num dos bancos de madeira, ao lado da mesa coberta pelo mesmo plástico às flores, agora apenas traços verdes e amarelos desmaiados. Com um canivete manchado pela ferrugem, o velho cortava pedaços de pão para dentro da tigela, sobre o leite. Ele recordou aquelas mãos toscas e rugosas segurando com firmeza a agulha de madeira e remendando as malhas das redes de pesca, com laçadas finas, apertadas. E, por momentos, viu-se a si mesmo desenhando plantas, pormenores, respeitando as escalas, definindo volumes, arquitetando, compondo o seu mundo.

— Já é tarde — a voz tão rouca.

A frase surpreendeu-o. Adivinhou nela, mais do que uma ordem, um sinal de atenção, um cuidado, ainda que inábil, desajeitado. E escutou-se a responder:

— Não demoro.

O outro começou a sorver as migas, deixando escorrer o leite quando enchia novamente a colher, a tigela segura, trémula, junto à boca. Era como se concentrasse todo o esforço naquela tarefa e não ouvisse, não visse mais nada à sua volta.

Ele decidiu sentar-se também e poisar o saco sobre a mesa, abri-lo, tirar o queijo, as mangas maduras, o bolo de mel, e colocá-los em frente do outro.

— É para si.

Gostou de dizer isto. Antes de sentir vergonha por lhe dar prazer mostrar que desta vez era ele quem tinha, quem escolhia, quem dava, quem podia.

O velho não reagiu.

Ele deixou ficar a mão sobre o plástico da mesa e olhou os azulejos manchados de gordura, os armários com a tinta lascada, depois o naperon e a televisão sobre o frigorífico — sempre achara ridícula a disposição. Rememorou como, muito pequeno, chegara mesmo a acreditar que, um dia, o frio paralisaria as imagens, e que a seguir provocaria um curto-circuito, uma explosão qualquer. Lembrou-se do prazer que lhe davam estes pensamentos, esses desejos de destruição, essa vontade de uma catástrofe originada por um absurdo, sem responsável, segura.

O outro continuava a sorver a sopa. Indiferente. O que o irritou ainda mais. O que o deixou entregar-se ainda mais a essa irritação, a essa fúria. Havia sido sempre assim: ele a achar que a raiva que sentia desencadearia alguma coisa, forçosamente, mesmo sem ser traduzida por palavras. E o outro sem reagir, sem dizer, sem olhar, sem ver. Indiferente. Longe. E ele a sentir-se sufocar, desesperado, a querer abrir a boca e gritar. Mas de cada vez que a abria engolia mais água — ele lembrava-se, ele via —, e a cabeça estalava por dentro, uma dor profunda, e o corpo ganhava uma força absurda, lutando contra a água, mas era como lutar contra nada, no vazio. Ele ouvia: “Há de engolir tanta água que há de aprender.”; “filho de peixe sabe nadar”; “filho de peixe sabe nadar”; “filho de peixe sabe nadar”… Ele a afogar-se. Ele a deixar-se ir, sem forças. Ele a entregar-se. E o outro a levantá-lo pelos braços e a voltar a atirá-lo, a largá-lo. Uma vez, duas, três, sem parar. “Filho de peixe sabe nadar”; “filho de peixe sabe nadar”; “filho de peixe sabe nadar”… E um grito: “Pai.”

Então respirou fundo, e disse, num tom demasiado alto:

— Você não devia ter-me largado. Não lhe perdoo. Não lhe vou perdoar nunca.

O velho deixou cair a colher dentro da tigela, mas não ergueu os olhos. Poisou a tigela, afastando com ela as frutas, que caíram para o chão, rolando para debaixo da mesa.

Ele levantou-se e olhou-o. Pareceu-lhe pequeno, demasiado pequeno, minúsculo, mirrado. Reparou nas manchas escuras que lhe invadiam as mãos, a pele enrugada, encardida pelo sol, vincada como um trapo muito usado. Sentiu vontade de lhes tocar, mas não se mexeu. Virou-se e dirigiu-se para o corredor, fixando de novo o tapete,  o aparador, o bengaleiro, o calendário e os dois gatos, enrolados em volta de um novelo de lã, sobre um fundo azul-bebé.

O outro levantou-se devagar, segurou a tigela numa das mãos e dirigiu-se para o lava-loiça.

 

— Assistentes sociais… Doidos… Está tudo doido!

Ao fundo, a porta fechou-se.

A tigela ia batendo na borda do lava-loiça, sob a força do jacto de água. O velho baixou-se lentamente. E foi apanhando, com um infinito cuidado, a comida do chão.

© FM (reprodução integral interdita, sem autorização prévia da autora)

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