JAMES WOOD | A MECÂNICA DA FICÇÃO

Com o crítico literário James Wood entramos com facilidade no texto literário. O difícil, depois, é sairmos de lá. «Escrever crítica está para escrever ficção e poesia como navegar à vista está para a navegação em alto mar.» Foi John Updike quem o disse na primeira linha de um dos seus melhores conjuntos de textos sobre literatura, Hugging the Shore (sem edição por cá). A frase serviria como excelente comentário ao ensaio A Mecânica da Ficção, não fosse o autor, James Wood (n

Jean-Jacques Rousseau | Sr. Paradoxo

Trezentos anos após o seu nascimento, Jean-Jacques Rousseau permanece um dos mais controversos contribuidores da grande história das ideias. Terá ele sido um abnegado filantropo ou um narciso ressabiado? Um libertário democrata ou um potencial totalitarista? Com as comemorações, renasce o debate sobre a importância e atualidade dos pensamentos do cidadão de Genebra. «Nasci quase morto.» Ao ver pela primeira vez a luz do dia, a 28 de Junho de 1712, Jean-Jacques Rousseau provoc

Helena Vasconcelos | Humilhação e Glória

No final do século XIX, Emily Dickinson escrevia, na sua tão particular sintaxe e pontuação: «Não sou Ninguém! Quem és?/ És tu – Ninguém – Também?/ Há, pois, um par de nós?/ Não fales! Não vão eles – contar!// Que horror – o ser – Alguém!/ Que vulgar – como Rã -/ Passar o Junho todo – a anunciar o nome -/ A Charco de pasmar!» (tradução de Ana Luísa Amaral) A poeta, a partir dos 36 anos enclausurada por vontade própria na casa da família, sempre vestida de branco, anotando poe

Huston Smith | A Essência das Religiões

Editado pela primeira vez em 1958 e com mais dois milhões e meio de exemplares vendidos em todo o mundo, The World’s Religions: Our Great Wisdom Traditions é uma das mais consideradas análises comparativas não valorativas entre as sete principais religiões: cristianismo, hinduísmo, budismo, confucionismo, taoísmo, islamismo e judaísmo (a que acresce um capítulo sobre religiões primitivas). A obra, assinada pelo professor de estudos religiosos Huston Smith, foi editada pela Lu

Peter Singer | Abaixo a caridadezinha

Após receber a herança paterna, o australiano David Morawetz decidiu doar parte dela. Criou uma fundação, pesquisou projetos e optou por, com 10 mil dólares, financiar a abertura de um poço numa aldeia de 100 mil habitantes numa região árida da Etiópia. Na aldeia, hoje, diz-se: «Antes de termos o poço, os nossos filhos morriam. Agora, não.» O gesto solidário de Morawetz ilustra uma múltiplas ações indignadas, generosas e eficazes num mundo em que 18 milhões de pessoas morrem

Luc Ferry | Entrevista

Luc Ferry, defensor de um humanismo secular, professor de Ciência e Filosofia Política, ex-ministro da Educação (no governo liderado por Jean-Pierre Raffarin, entre 2002 e 2004), actual presidente-delegado do governamental Conseil d’Analyse de la Société, 57 anos. Em Portugal, saiu o seu 12º, ensaio: Famílias, Amo-vos: O Novo Espírito de Família (Círculo de Leitores/Temas e Debates). Com a mesma veemência com que defendeu, e conseguiu, a proibição dos símbolos religiosos nas

Ler a Crise | Em 16 livros

Tempos interessantes & Boas intenções É uma maldição: «Que vivas em tempos interessantes!» Aos antigos sábios chineses que a terão formulado, podemos responder que, sim, comprovámo-lo no século XX (Hobsbawn dixit) e voltamos a assumi-lo no XXI. Qual o nome hoje dado a este mal-estar? Ah, a crise! A sua dura realidade e a sua fascinante complexidade motivaram, nas últimas duas décadas, milhões de páginas. O interesse é real. A maldição está em aberto. De todas as áreas da ciên

João Lobo Antunes | Ensaio do Desassossego

«Uma sensação desconfortável, um irreprimível desassossego da inteligência e da sensibilidade». É assim que João Lobo Antunes, Prémio Pessoa em 1996, define a motivação inicial, por exemplo, para uma reflexão sobre a verdade como «valor transcendente» e como «esqueleto» das «relações entre as pessoas, destas com as instituições e [d]as relações das instituições entre si». De facto, a inquietude, temperada pela obediência a uma qualquer verdade interna (escreve: «pertenço desd

Portugal foi à guerra

A canção tornou-se famosa, uma moda entre os soldados portugueses. Então, para esconjurar o medo de serem atingidos por uma granada, entoavam: «Ai que cagaço / Que estardalhaço / Quando no espaço / A oiço silvar / Zzz / É a granada / Que estuporada / E sem ser esperada / Nos faz cavar / Pum!» Alimentados a corned beef («carne de cavalo com bastante gordura»), fustigados pelo frio, cobertos de lama pegajosa, apavorados com a ameaça dos morteiros e dos gazes asfixiantes, saudos

Elisabeth Badinter | A moda tirânica das «mães ideais»

Em resposta a novas pressões e deveres sociais e morais, cada vez mais, as mulheres rejeitam os contraceptivos, querem ter bebés e tê-los com dor e apertá-los de imediato «pele com pele», ficar em casa e na cama com eles e amamentá-los durante pelo menos seis meses, usar fraldas de pano, congelar a carreira profissional e serem… mães perfeitas. As novas concepções de maternidade defendidas por uma onda natalista, ecologista, naturalista e «reaccionária» estão a dar cabo de dé

Camille Paglia | O outro sexo

«Personas Sexuais», finalmente traduzido em Portugal, reavalia radicalmente a representação da sexualidade humana na arte ocidental desde a Antiguidade e, como tal, pertence ao cânone das  obras-choque do século XX. Porque é passível de provocar azias várias, e também porque tem quase 700 páginas repletas de remissões em espiral, é desaconselhada a quem não retiram prazer inexcedível do exercício crítico de pensar. Em 1990, a edição de estreia, «Personas Sexuais: Arte e Decad

George Steiner | Livros com pernas

Desde há meio século que o crítico, ensaísta, filósofo e tradutor George Steiner (n. 1929, Paris) relaciona o poder da linguagem (e da literatura) e a sociedade. Poliglota, erudito de excepção, repete em todos os seus livros que «a árvore tem raízes, mas o homem pernas e que ter pernas é um progresso imenso» (em «Quatro Entrevistas com George Steiner», de Ramin Jahanbegloo, Fenda). De facto, é o permanente movimento de curiosidade intelectual, livre e independente e à margem

Eduardo Lourenço | Eros e o tempo

Desta vez, estamos no território de Eros, caminhando para a vitória do erotismo sobre o amor. Seguimos as linhas de pensamento cruzadas em cinco ensaios recentes e em três outros, datados de 1968 ou dos anos 90. Do fin de siècle e de um tal “rumor das saias de Elvira” como “romantismo recalcado” em Eça até um contemporâneo caos “sem pânico”. Passando por um texto fundamental publicado na revista O Tempo e o Modo (e logo apreendido) nos anos 60, onde problematizou o casamento

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