Sangue e letras 07-07-2007
Sangue e letrasEm 2003, a atribuição do prestigiadíssimo prémio da National BookFoundation ao autor de terror Stephen King provocou uma batalha campalno meio literário. Num texto curto e enraivecido, o papa da crítica edo cânone, Harold Bloom, insurgiu-se contra «mais um degrau nochocante processo de estupidificação da vida cultural»norte-americana. Em resposta imediata, multiplicaram-se os artigos etextos de opinião contra Bloom (pela displicência ou pelo elitismoenfatuado) ou contra King (elevado asupra-sumo-da-literatura-má-que-vende-muito). O confronto tratavaafinal da definição e oposição entre «ficção popular» e «ficçãoliterária» e, só por si, valia bem uma extensa análise. Quanto a King,alguém iluminou a questão: «Estão a desdenhar de um cão por não ser umgato.»Desde o romance de estreia, «Carrie» (1974), a avaliação da obra deKing tornou-se uma faca de dois gumes. Por um lado, os astronómicosnúmeros de vendas e a ligação à máquina de Hollywood. Por outro, areabilitação que fez do romance gótico do século XIX, modernizando-o apartir da sua característica central: a convocação de terror e belezapara uma experiência visionária. Com uma extensa carreira com váriosmomentos inconsistentes, King não possui o génio de Edgar Allan Poe,expoente máximo da estilística do terror psicológico. Mas ahonestidade do seu labor (expressa no ensaio «Escrever») é inegável,como o são o instinto para a narrativa, a força dos temas (crianças emperigo, violência doméstica, o triunfo final dos mais fracos evulneráveis) e a capacidade de distinguir no que é mundano as marcassimbólicas da América do pós-guerra. No último romance, estas virtudessurgem no máximo da sua força.«A História de Lisey» trata da rememoração pela viúva de um escritorfamoso não só de 25 anos de vida em comum, mas também do universo dealguém que alimenta a escrita com as mais aterradoras memórias dainfância. Sangue e auto-mutilações correm a par de uma invulgarhomenagem ao poder do amor e da imaginação. Críticos do «New YorkTimes», da «Antaeus» ou da «New Yorker» aclamaram o romance e chegarammesmo ao exagero de o comparar a James Joyce. King riu-se com certeza.E Bloom deve ter espumado. Na verdade, o título de grande literaturajá não é uma vaca sagrada e é, sobretudo, pertença de todos e deninguém.A História de LiseyStephen KingBertrand Editora488 págs., 19.95 euros