A herança
A herança
«Morrer é trabalho e ele era um trabalhador. Morrer é horrível e o meu pai estava a morrer.» A citação é de Philip Roth e apresenta «Património: Uma História Verdadeira», o romance autobiográfico que, em 1992, deu ao escritor norte-americano o National Book Critics Circle Award e que a editora Dom Quixote coloca esta semana nas livrarias portuguesas. Roth descreve os últimos anos de vida do seu pai, o agente de seguros reformado Herman Roth, filho de um judeu polaco que emigrou para os Estados Unidos em 1897. Herman «suou sangue» durante 40 anos a trabalhar na mesma empresa e fez da auto-disciplina e da devoção à família o centro da sua vida. No final do romance, a sua voz fantasmática (e profundamente judia) diz ao filho: «Não devemos esquecer nada.»
Podia ser apenas o relato da despedida final entre um pai com 86 anos, cujo corpo vai capitulando a um tumor cerebral, e um filho de 56, que esbraceja contra a impotência dos gestos e do amor perante a inevitabilidade da morte. «Património» é bem mais do que isso. A gradual perda de visão e de audição, a decadência física de Herman Roth serve como metáfora da passagem de testemunho implicada na paternidade. Ao filho, caberá uma re-análise das consonâncias e divergências que marcaram uma história em comum. Philip Roth descreve-as com a limpidez intelectual, a crueza emocional (como no relato de quando limpou o pai e os seus dejectos) também o sentido de humor (leia-se o episódio das memórias pornográficas de um sobrevivente de Auschwitz) que caracterizam todos os seus livros.
Tão longe está esta «história verdadeira» do extremismo sexual e afectivo do primeiro romance de Roth, «O Complexo de Portnoy» (de 1969). Ali, o protagonista era Alexander Portnoy, o judeu que descreve ao psicanalista como as raízes da sua radical mas infrutífera luta hedonista pelo prazer sexual se ligam ao património de ética e culpa que recebeu dos pais. Duas décadas depois, Roth escreve que o percurso de fuga às convenções que percorreu desembocou afinal na noção de que os seus «fundamentais e entranhados sentimentos eram mais convencionais do que a [sua] noção de inabalável sentido moral.» Do pai, ele não abdica de herdar a tigela de barbear que pertencera ao avô, um sentimento de pertença e, acima de tudo, um comovente património de vulnerabilidade e tenacidade.
Património
Philip Roth
Publicações Dom Quixote
214 págs., 17.75 euros