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SOL · Crítica e ensaio

Padre António Vieira

O PRAZER DA LEITURA

Padre António Vieira

(Lisboa, 6 de fevereiro de 1608 — Bahia, 17 de junho de 1697)

Nos sertões e brenhas brasileiros que percorreu descalço, falando sete idiomas nativos, os índios Tupi chamavam-lhe «Paiaçu», Grande Pai. Fernando Pessoa elegeu-o «Imperador da Língua Portuguesa». Quatrocentos anos sobre o seu nascimento, são ainda muitos aqueles que tomam o seu estilo por modelo. Vieira, o missionário jesuíta. Vieira, o esteta. Vieira, o pregador. Vieira, o diplomata. Vieira, o cosmopolita. Vieira, o profeta. De tantos Padre António Vieira se tem alimentado a análise da história, da cultura e da literatura seiscentistas portuguesas. Dinâmico, de têmpera impulsiva, o escritor e o homem de acção, sempre juntos, legaram biografia e estilo em xadrez, pela afirmação da coerência através do contraste ou da analogia. Corajoso e reformador, Vieira resistiu às perseguições do Santo Ofício como a sua obra gigante (duzentos sermões, mais de meio milhar de cartas, todos reunidos em quinze volumes) resiste ao tempo.

Em dado passo D. João IV pediu-lhe «que não empregasse lábia», mas como, se o poder da convicção e a lógica do argumento eram intrínsecos a Vieira? Antes de mais, foi um homem fiel à propagação da palavra de Deus. Diplomata, claro, dos primeiros, sapiente nas manobras palacianas tanto como na procura de soluções que conjugassem a concepção empírica das novas condições sociais e políticas com a mentalidade tradicional (assente no medievalismo da formação religiosa jesuítica, tal como a oratória vieiriana se sustenta nas regras do professor romano Fábio Quintiliano). Três vontades traçaram-lhe acção e obra: lutar contra a bárbara escravatura dos índios e a desmesurada busca de ouro praticadas pelos colonos portugueses; ver Portugal cortar amarras políticas com Espanha; firmar o Quinto Império como utopia universal (e, para isso, legitimar a dinastia de Bragança e incentivar o regresso dos judeus e dos seus bens). Aos 89 anos, Padre António Vieira morreu na Bahia, cumprindo um amor enorme por Portugal e pelo Brasil. Uma vida de acção e palavra, em nome de uma certa utopia «sem tempo nem limite».

Cronologia:

1608 — A 6 de Fevereiro, nasce em Lisboa.

1615 — Parte para o Brasil, com os pais.

1623 ­— Ingressa na Companhia de Jesus.

1633-35 — Inicia carreira de pregador e é ordenado padre.

1641 — Chega a Portugal; torna-se amigo e confidente de D. João IV.

1646 — Inicia actividade diplomática.

1649 — Obtém de D. João IV a criação da Companhia Geral do Comércio do Brasil.

1652 — Parte para o Brasil, como superior dos missionários jesuítas do Maranhão e Pará.

1661 — É expulso, com os outros jesuítas, do Maranhão, pelos colonos. Sofre de paludismo.

1662-1667 — Perseguido pelo Tribunal do Santo Ofício, é desterrado para o Porto, depois para Coimbra, preso, mantido em custódia, sentenciado a silêncio perpétuo.

1669 — Aministiad, parte para Roma, onde tem êxito como pregador na cúria romana e na corte da rainha Cristina da Suécia.

1679 — Publicação do primeiro volume dos «Sermões».

1681 — Regressa à Bahia e aos trabalhos de evangelização.

1697 — A 18 de Julho, morre no Colégio dos Jesuítas em Salvador da Bahia, onde fizera os estudos.

Citações (usa as que quiseres, pus por ordem de importância, e a bold, versões mais curtas):

• «Nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra. Para nascer Portugal, para morrer o mundo.»

•«Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três cousas: olhos, espelho e luz.»

• «Palavras sem obras são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. (…) Para falar ao vento bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras.»

• «Os inimigos que mais temo a Portugal são soberba e ingratidão, vícios tão naturais da próspera fortuna, que, como filhos da víbora, juntamente nascem dela e a corrompem.»

• «O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem.»

• «Os Filósofos dizem que uma contraditória não cabe na esfera dos possíveis, eu digo que cabe na esfera dos olhos.»

• «A perfeição não consiste nos verbos, senão nos advérbios; não em que as nossas obras sejam honestas e boas, senão em que sejam bem feitas.»

• «É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta.»

• «A vida sempre caminha ao mesmo passo, porque segue o curso do tempo: a morte nenhuma ordem guarda no caminhar, nem ainda no ser. Umas vezes é uma anatomia de ossos que anda, outras um cavaleiro que corre, outras uma foice que voa.»

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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