Voltar ao arquivo
SOL · Crítica e ensaio

Velha infância

O PRAZER DA LEITURA

Velha infância

É discutível dizer-se que a infância é a idade da inocência, embora seja esse talvez o único momento da vida em que a memória trabalha involuntariamente. As crianças relacionam-se entre si na ausência de vozes e de gestos que as liguem ao passado, ao que já foi antes falado e experimentado, à existência dos mortos. «Os da minha rua», o novo livro de Ondjaki, reúne 22 estórias-memórias, curtas e autobiográficas, de como uma criança cresceu em Luanda há cerca de duas décadas.

«É um bocadinho assustador, mas mesmo quando somos crianças o antigamente já fica lá longe», escreve o autor. Por isso Ndalu, a criança deste livro, experimenta de cada vez como se fosse a primeira vez no mundo o prazer de comer um lanche de meia banana com pão, mangas verdes com sal, «misturas que inventam uma poesia mastigada tipo segredos de fim da tarde”. Contidas na «personagem» como centro criativo, estas lembranças de Ondjaki possuem a mesma verdade imaginativa original que encontráramos nos contos de «momentos de aqui» (2001) ou “e se amanhã o medo” (2005), nos romances “bom dia camaradas» (2003) e “quantas madrugadas tem a noite» (2004).

Nas cartas trocadas entre ela e o autor e que servem de epílogo ao livro, Ana Paula Tavares fala de «palavras limpas» que serviram «afectos e inquietações revisitadas», contos «de como crescem em segredo as crianças». E é nessa ideia de luminosidade secreta que rasga uma terra minada pela guerra ou pela desesperança no futuro que este relato ganha força e importância.

Despretensioso, mas sensível à melodia da narração, Ondjaki surpreende pela poesia da sua coloquialidade sintética e directa. Consegue-o graças ao uso de atributos inusitados e aparentemente ilógicos, construções que vão contra a sequência sintática clássica, uma manipulação da língua em criações idealizadas, quase uma metalinguagem. A voz é a de uma criança ou de um adolescente, na sua forjada inocência e sinceridade, na sua «dificuldade de palavras compridas».

«Naquele tempo o tempo passava devagar.» Aqueles tempos eram os do camarada presidente Neto, da Escola Juventude em Luta, das rotinas do bairro poeirento da avó Nhé, dos beijinhos na boca, de risos como «mil cócegas espalhadas no ar quente da noite», do muro onde se recriavam as telenovelas brasileiras. Um tempo para ler agora, num prazer «de demorar».

Os da Minha Rua

Ondjaki

Editorial Caminho

125 págs., 8 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

Continuar a leitura