Raios, é a guerra!
Raios, é a guerra!
Em 1948, aos 25 anos, o lançamento do primeiro romance, «Os Nus e os Mortos», com 200 mil cópias vendidas em apenas três meses e unânime aclamação crítica, trouxe fama imediata a Norman Kingsley Mailer (Nova Iorque, 1923-2007), um judeu da classe média de Nova Jérsia. Nos 59 anos de carreira subsequentes, nenhum dos seus cerca de 40 livros (10 deles romances, como os maiores «Os Exércitos da Noite», 1968, e «O Canto do Carrasco», 1979) atingiria semelhante recepção. Entretanto, o exibicionista e ambiciosíssimo Mailer reconheceu: «Parte de mim pensou que [«Os Nus e os Mortos»] era talvez o melhor livro escrito desde «Guerra e Paz». Por outro lado, também pensei: ‘Não sei nada sobre o que é escrever. Sou, virtualmente, um impostor.» O romance é relançado pela Dom Quixote, comemorando 60 anos de edição, com prefácio de José Cardoso Pires (datado de 1958) e introdução do autor (de 1998).
Escrito em apenas 15 meses, sob a influência da leitura do «compassivo» Tolstoi, «Os Nus e os Mortos» (adaptado ao cinema em 1986, por Raoul Walsh) é em parte inspirado na experiência de guerra de Mailer (sobretudo, nos relatos que escutou): em 1945, instalando cabos de telefone, integrado na 112ª Cavalaria do Exército Americano nas Filipinas, depois como cozinheiro das tropas de ocupação norte-americana no Japão. Uma testemunha desses tempos afirma que Norman «teve mais combates com os superiores do que com o inimigo». Mas ficaria na história da literatura de guerra norte-americana (ao lado de obras de Stephen Crane, John dos Passos ou Hemingway) este enredo epopeico de 700 páginas sobre 13 soldados norte-americanos de um pelotão de reconhecimento em confronto com os japoneses em Anopopei, uma fictícia ilha do Pacífico.
Norman Mailer foi um estilista obsessivo que tentou sobressair tanto pela literatura como pela biografia – marcada por seis casamentos, o apunhalamento da segunda mulher, a defesa empolgada de um assassino, uma candidatura falhada a mayor de Nova Iorque ou uma longa experiência de abuso de álcool e drogas. Radical, os seus romances estão impregnados de uma mistura provocatória de empirismo, de capacidade de abstracção e de detalhe, que o comprovam também como brilhante jornalista e filósofo auto-didacta. Em «Os Nus e os Mortos», ainda que tolhida pela obediência ao género de romance de guerra, encontra-se a essência das marcas distintivas de Mailer, um escritor que cresceu tempestuosamente em público, até ao último romance, «O Fantasma de Hitler» (Dom Quixote), escrito pouco antes de morrer, com 84 anos.
Apesar das fragilidades (amadorismo, pouca inventividade linguística, segundo o autor), «Os Nus e os Mortos» tenta uma audaz organização da economia narrativa, pelo recurso a analepses (referenciadas como «A Máquina do Tempo», onde o discurso directo surge sem aspas ou travessões e se revelam episódios importantes para a compreensão de cada personagem) e a coros, que finalizam alguns capítulos. As personagens (em especial, o tenente Hearn) são heróis sem causa, em choque com valores, inimigos ou hierarquias. Numa «novelística radicada, não no documentário, montado, mas no testemunho dos caracteres e do comportamento de dada acção colectiva» (Cardoso Pires), a violência é tida como acto existencial. Sem sentimentalismo ou juízos de valor, mas com comiseração, resistente a qualquer pressão e com «verdade literária e rigor ético», Mailer comprometeu-se a testar a experiência individual perante a desordem de um determinado momento histórico.
Aquando da primeira publicação de «Os Nus e os Mortos», os editores convenceram-no a substituir «fuck» pelo eufemismo inventado «fug», e essa foi, provavelmente, a única cedência às convenções que Mailer alguma vez. Sessenta anos passados, é de lamentar que, na nova tradução portuguesa, se tenha optado por «aligeirar» (a expressão é da tradutora, Maria João Freire de Andrade) o peso do vernáculo no romance. Na escrita audaz, fluida e vívida de Mailer, é ridículo substituir-se o verbo «foder» ou a interjeição «damn» por «lixar», «uma gaita», «que diabo», «céus», «raios partam» ou «caramba», ainda mais quando se trata de soldados em cenário de guerra. O resultado é artificial e forçado, como aliás acontece em grande parte das traduções dos grandes pós-modernistas norte-americanos, emancipados do puritanismo, precisamente, através de uma linguagem franca e directa.
Os Nus e os Mortos
Norman Mailer
Publicações Dom Quixote
709 págs., 24 euros