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SOL · Crítica e ensaio

Macroficção

O PRAZER DA LEITURA

Macroficção

Eduardo Torres, personagem central de «O Resto É Silêncio», o único romance de Eduardo Monterroso, recém-editado pela Oficina do Livro, questiona-se: «Escritor nasce, é ou faz-se?» Logo em seguida, responde: «Digam o que disserem, o escritor nasce, não se faz. Pode acontecer que, finalmente, alguns nunca morram; mas desde a Antiguidade é raro encontrar algum que não tenha nascido.»

A citação, plena de retórica, ironia e inteligência, apresenta o universo de Monterroso, um dos mais singulares autores centro-americanos, nascido nas Honduras (em 1921), criado na Guatemala e falecido no México (2003). A par, por exemplo, do húngaro István Örkény (que o leitor pode descobrir em «Histórias de 1 Minuto», publicado pela Cavalo de Ferro), Monterroso é sobretudo aclamado como um dos pioneiros na criação de micronarrativas, ficções concentradas em poucas ou numa só frase, que oferecem ao leitor múltiplas interpretações de sentido e uma projecção habitualmente irónica da realidade tida como mais banal. A sua bibliografia, apurada com minúcia e concisão, valeu-lhe os prémios Juan Rulfo 1996 e Príncipe das Astúrias das Letras 2000. O seu epitáfio podia ter sido o seguinte: como os grandes livros não se medem aos palmos ou como o pouco pode conter muito.

«O Resto É Silêncio» é uma curta preciosidade narrativa que convoca vários géneros literários e múltiplas referências intertextuais («D. Quixote» anda por aqui) para apresentar uma única personagem: o escritor Eduardo Torres, intelectual ilustre da «velha comarca» de San Blas. Em pouco mais de 160 páginas, julgamos conhecê-lo através de testemunhos de amigos e familiares e da compilação dos seus ensaios, desenhos, «aforismos, frases famosas, refrães e apotegmas» e da apresentação de um ambíguo epigrama. Mais do que uma homenagem biográfica ao ficcional Torres, trata-se de um exercício de desmontagem de grande parte das opiniões e certezas da personagem.

Quando todos nele destacavam o humor, Monterroso defendia ser um autor realista. Porque, na sua obra, a ironia serve apenas como mediadora da realidade, forma indirecta de abordar a trágica condição humana e a impossibilidade de se solucionar ou saber alguma coisa. Figura poliédrica, Torres é a súmula das reflexões teóricas do escritor. Abordá-lo é admitir entrar num macro jogo de convicções e equívocos.

O Resto É Silêncio

Augusto Monterroso

197 págs., 14 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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