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SOL · Crítica e ensaio

Solidão a dois

O PRAZER DA LEITURA

Solidão a dois

Ian McEwan estreou-se em 1975 com o livro de contos «Primeiro Amor, Últimos Ritos» e é, a par de Martin Amis e Julian Barnes, um dos expoentes máximos da literatura britânica. Daí que se enalteça a dedicação com que a editora Gradiva tem publicado a totalidade da sua obra (dois livros de contos e onze romances), coroando-a com o lançamento, em simultâneo com a Grã-Bretanha, do seu mais recente romance. «Na Praia de Chesil» é já um dos livros do ano.

Com rapidez, entramos na acção, situada em meados dos anos 60: “Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.” Florence e Edward estão finalmente sozinhos num quarto de hotel de onde se avista o Canal da Mancha e a praia de Chesil. Sozinhos, potencialmente livres, e transidos pela ansiedade, por temores e repulsas viscerais, por «mil regras não oficiais [que] continuavam em vigor». Numa única noite, as suas vidas mudarão de rumo.

McEwan, que se estabeleceu como cronista do macabro e da violência mais inesperada, tem vindo a amenizar-se. Depois de «Sábado», uma pirueta virtuosa sobre o 11 de Setembro, apresenta-se mais terno no tratamento (bastante esquematizado) das suas personagens e de novo extraordinariamente sensível ao modo como homens e mulheres se relacionam. «Na Praia de Chesil» demonstra-o sobretudo na construção do mundo interior da personagem Florence, a violinista capaz das interpretações mais apaixonadas mas encurralada no terror pelo toque físico. Por seu turno, Edward, o «que sabia os nomes das flores e dos frutos silvestres e de todos os reis e papas medievais» interpreta o determinismo do desejo masculino. Através do olhar dos dois e de um percurso através das suas curtas biografias, situamo-nos numa época histórica em que «ainda não era habitual uma pessoa considerar-se em termos do quotidiano como um enigma, como […] um problema à espera de ser resolvido».

O brilho de McEwan revela-se mais uma vez nas subtis complexidades através das quais desenvolve a acção. Lê-lo é como patinar sobre uma finíssima placa de gelo, deslizando em harmoniosa velocidade. A qualquer momento, a superfície racha e corremos o risco de nos afogarmos. É assim também com o amor na praia de Chesil.

Na Praia de Chesil

Ian McEwan

Gradiva

129 págs., 12 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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