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SOL · Crítica e ensaio

Não amarás

O PRAZER DA LEITURA

Não amarás

«Podes viver mas não amarás.» A divisa tatuada era exibida por vários «brutos e bestas», os administradores que dominavam os «gulag» como uma «elite conspícua e ruidosa». Para muitos dos milhões de prisioneiros que passaram pelos campos de trabalhos forçados da URSS entre 1918 e 1956, esse pode ter sido o preço da sobrevivência: serem contagiados com uma brutal e bestial incapacidade de amar. É dela que trata «A Casa dos Encontros», de Martin Amis, a partir do destino de dois irmãos apaixonados pela mesma mulher e depois presos no mesmo campo no final da década de 40.

Em «Gulag, uma História», a mais completa aproximação historiográfica à realidade dos campos, é referida a existência da «casa das visitas», local onde, em regime de excepção e por breves momentos, alguns presos se encontravam com os seus familiares (sobretudo a mãe ou a esposa). Martin foi buscar informação e inspiração ao livro de Anna Applebaum, como aos de Aleksandr Soljenitsin («Um dia na vida de Ivan Deníssovitch» ou «Arquipélago Gulag»). Por estas páginas passam também sombras de «Recordações da Casa dos Mortos», de Dostoievski. Todavia, o centro de «A Casa dos Encontros» não foge ao tema transversal à bibliografia do autor britânico e filia-se antes em «Os Irmãos Karamasov». A rivalidade pelo poder (neste caso moral e amoroso) é o motor do conflito.

Esta é a história de um triângulo amoroso, narrada por um dos vértices à sua filha, Venus, como quem faz «uma estimativa do irrecuperável». A violência, o ódio, a luta contra a impotência são a linguagem deste homem. Acolheu-os, no exército russo na Segunda Guerra ou no inferno do «gulag», através do «cio químico das emoções das massas», da «fúria do poder». Tornou-se um violador, a prova de que «o homem é o lobo do homem». Até à morte, a luta entre os dois irmãos seguirá a primeira lei da vida no campo: «para ti, nada; de ti, tudo».

Em Martin Amis é difícil o enredo superar a surpresa dos desempenhos estilísticos. Aos 57 anos, ele já não é o «bad boy» zombeteiro, mordaz e alucinado que rasgou as convenções da literatura britânica e satirizou a era Tatcher. Agora, quer mostrar-se sério e profundo. Nada a temer: a efervescência da prosa mantém-se imbatível.

Voltou o Coelho, chegou o Coelho

Na última edição, por lapso, não foi referida a primeira edição portuguesa de «Corre, Coelho», de John Updike: com tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, foi publicada pela Europa-América nos anos 60 e logo apreendida pela Censura.

A Casa dos Encontros

Martin Amis

Editorial Teorema

231 págs, 17.86 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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