As cicatrizes do mito
As cicatrizes do mito
Elas estão lá, bem visíveis, nas últimas sessões de fotografias, com o fotógrafo Bert Stern para a revista «Vogue», ou nos últimos «takes» do inacabado «Something’s Got to Give», de George Cukor. Uma larga cicatriz de intervenção cirúrgica recente, um olhar cansado e sem brilho, uma magreza insólita: cicatrizes de 36 anos de uma vida assente na utilização, e exploração, de um corpo. Encontramo-las na sua expressão mais trágica numa imagem datada de poucos dias após a morte, a 5 (ou 4) de Agosto de 1962, e raramente reproduzida. Norma Jean Baker/Marilyn Monroe sobre a mesa de autópsia, os cabelos castanhos escorridos e libertos de coloração, os músculos do queixo puxados pela força da gravidade, o nariz de criança pequena, as maçãs do rosto tumefactas. O rosto inexpressivo da morte do mais iconográfico e perdurável mito feminino do cinema.
Nas últimas quatro décadas, as especulações mais variadas sobre o fim de Marilyn (suicídio, acidente, assassinato?) fizeram a fortuna de vários autores e editores. Para enquadramento do «caso MM» aconselha-se a leitura de «Marilyn Monroe: The Biography», de Donald Spoto, e de «The Last Days of Marilyn Monroe» (1998), de Donald H. Wolfe. Mas é «Marilyn, Últimas Sessões» a obra que aborda o tema segundo a perspectiva mais original.
O autor é o psicanalista e romancista francês Michel Schneider. O livro é apresentado como ficção e, no entanto, é nele que, pela primeira vez de modo consistente, Marilyn deixa de ser só corpo e adquire uma singular dimensão psicológica. Ao longo de quase 400 páginas de esmiuçar de informações documentais (nenhuma delas consultada em primeira mão) relativas sobretudo aos dois anos de prática terapêutica da actriz com o psiquiatra Ralph Greenson (entre 1960 e Agosto de 1962), nasce uma nova personagem trágica.
«Marilyn, Últimas Sessões» é brilhante como extensão do pano de fundo de um puzzle. Apresenta o ambiente de descontrolados fascínio e contaminação entre Hollywood e o meio da psicanálise norte-americana nos anos 40 e 50 e Marilyn como vítima de bárbaras práticas clínicas. Desesperadamente à procura da cicatrização das suas feridas através da verbalização, a actriz revela-se tudo menos ingénua ou pateta. Schneider resume com exactidão: «Desde o início, desenrolou-se nela um drama entre a voz e a pele.»
Marilyn, Últimas Sessões
Michel Schneider
Difel
393 págs., 17 euros