Salada de peixe
Salada de peixe
Diz o ditado que não devemos dar passos maiores do que as nossas pernas, e este livro resume isso mesmo. Terceiro romance do australiano Richard Flanagan, O Livro dos Peixes de Gould provocou reacções contraditórias por parte da crítica anglo-saxónica e foi distinguido com o Commonwealth Writers Prize 2002. Os dois romances anteriores -Death of a River Guide (1994) e The Sound of One Hand Clapping (1997) - prenunciavam uma carreira interessante para o autor, e ele apostou num desafio ambicioso.
Tal como indica o subtítulo (Um romance em 12 peixes), o enredo desenvolve-se em doze capítulos, titulados com doze nomes de peixes, metáforas para uma personagem ou a um momento específicos da acção. No centro da história está um tal Livro dos Peixes, escrito e ilustrado por Gould. Como personagem histórica, William Buelow Gould foi um pintor e falsário inglês, preso, no início do século XIX, na brutal colónia penal da ilha de Sarah, Terra de Van Diemen, actual Tasmânia. São dele as representações da fauna da ilha, ainda hoje muito apreciadas. Tudo o mais, no romance de Flanagan, é pura invenção.
Leia-se no primeiro capítulo, pela voz de Sid Hammet, o primeiro narrador: “Nós – as nossas histórias, as nossas almas – passamos por um processo de permanente decomposição e reinvenção (…) este livro, iria depois descobrir, era a história do monte de esterco que eu tinha como coração.” É com Hammet, já no século XX, que encontramos e vimos desaparecer de novo o Livro dos Peixes, relato da vida de Gould na colónia. Assistimos depois à sua reescrita e derivações, nas quais o intrujão Hammet, ou Gould, o pintor prisioneiro da cela para peixes, ou o louco Comandante da máscara de ouro que esconde as marcas da sífilis, ou o cirurgião Lempriere que acaba comido por um porco, são todos fruto do mesmo delírio de “reflexos distorcidos” e circulares.
Confusa, embrulhada, a rede de histórias pretende reflectir o poder criador da Literatura e questionar a sua relação com a verdade. Para tal, crente de que os reinventa, Flanagan convoca estilos, personagens, ideias de tantas obras célebres que seria fastidioso enumerá-las. Acaba vítima dessa presunção. A leitura de O Livro dos Peixes de Gould, embora possua um bom potencial inventivo, redunda numa frustrante sensação de caos e exagero.
O Livro dos Peixes de Gould
Richard Flanagan
Publicações Dom Quixote
390 págs., 22 euros