Um mundo sem-vergonha
Um mundo sem-vergonha
Factos: a desnutrição atinge 852 milhões de pessoas no mundo e a cada quatro minutos cega uma pessoa por carência de vitamina A; a fome mata meio milhão de crianças por mês. Os dados estão nos relatórios dos últimos dois anos da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). A que se deve este flagelo aterrador? Jean Ziegler aponta causas em O Império da Vergonha.
Denúncia da cumplicidade dos ocidentais para com a ordem canibal que vigora sobre os países subdesenvolvidos, denúncia da refeudalização do mundo pelos EUA e pelas maiores empresas transcontinentais, da agonia do direito internacional, da dívida e da fome usadas como «armas de destruição maciça contra os mais fracos» numa guerra económica permanente. E, como solução possível, defesa de uma utopia subversiva de um exército de conciências, o «poder da vergonha». Mas qual é a autoridade do homem que expõe estas ideias?
Jean Ziegler nasceu há 73 anos na Suíça, é um emérito professor de Sociologia, foi deputado socialista, diz-se «comunista de coração» e, desde 2000, é relator especial da Comissão dos Direitos do Homem das Nações Unidas sobre o direito à alimentação. Ao longo dos anos, o rol de acusações exposto na sua extensa bibliografia não poupou empresas, governos, líderes e partidos políticos - nem mesmo a própria ONU. Denúncias como a da «origem suja» dos fundos da banca suíça ou a da violação dos direitos humanos perpetrada por Israel nos territórios ocupados valeram-lhe múltiplos e milionários processos judiciais, tendo vencido todos eles até à data.
Ziegler diz-se “não um agitador, mas um intelectual orgânico do movimento social», um cidadão privilegiado engajado com os direitos daqueles que o não são. Por mais que seja apontado como maniqueísta ou até como ideologicamente ultrapassado, o seu O Império da Vergonha permanece de leitura obrigatória. Porque apresenta, com dados críveis e escandalosos, um panorama global da fome e miséria mais absolutas no mundo (alargando-se nos casos da Etiópia e do Brasil) e documenta o ofensivo poderio de multinacionais como a Nestlé ou a Siemens, os meandros mais sujos dos trânsitos políticos, comerciais e financeiros que dominam o mundo. Ziegler acusa: «A guerra pela justiça social planetária está por fazer.» Com ou sem vergonha, ninguém poderá discordar.
O Império da Vergonha
Jean Ziegler
Edições Asa
282 págs, 19 euros