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SOL · Crítica e ensaio

As lições do mestre

O PRAZER DA LEITURA

As lições do mestre

«No início, era o Verbo.» A citação bíblica serve a essência do trabalho que George Steiner (nascido em 1929, em Paris, filho de judeus austríacos) desenvolve há quase cinquenta anos e o tornou um dos expoentes máximos da produção intelectual contemporânea, representante de uma alta cultura humanista centro-europeia hoje mitificada. Na base da sua obra sempre esteve a reflexão sobre o modo como o discurso humano é utilizado em simultâneo para «abençoar, amar, construir, perdoar, mas também torturar, odiar, destruir e aniquilar». Quer trate da criação artística, do judaísmo ou da morte de Deus, o ponto de partida é o poder da linguagem. Daí que, ao ensino, à critica literária e ao ensaio, Steiner tenha acrescentado a prática da ficção, como em «Provas e Três Parábolas», datado de 1992 e recém-editado pela Gradiva.

Em 1982, em entrevista ao «The New York Times», Steiner defendeu: «Acredito que uma obra de arte, como as metáforas na linguagem [e mais do que um ensaio ou um tratado], pode colocar as mais sérias, as mais difíceis questões de forma a que os leitores respondam por si mesmos.» É o caso destas quatro ficções breves, nas quais Steiner apresenta por alegorias o essencial das suas convicções políticas e religiosas, abrindo-as como interpelações ao leitor.

«Provas» é a ficção mais extensa, com mais de 150 páginas. Trata do confronto de um revisor italiano, «sem rival nas artes do escrúpulo», com a perda da visão e a simultânea queda dos regimes socialistas e marxistas, «submergidos por uma exasperação furiosa». Num estilo elegante, Steiner explora a arte da interpretação e faz «provas» dos «milagres da razão» e das «leis da história». Como nos curtos «Excerto de uma Conversa», «Noël, Noël» e «Desert Island Discs», aborda a palavra (e o som) através da sua ligação à memória. E expõe a sua visão não-sionista da história do judaísmo; os judeus como inventores da consciência e «povo eleito do desespero».

Após a publicação recente do romance «O Transporte para San Cristobal de A. H.» (de 1981), a Gradiva anuncia mais ficção de Steiner para Março e Junho, respectivamente com as antologias de narrativas curtas «Anno Domini: Três Histórias» (de 1964) e «The Deeps of the Sea and Other Fiction» (de 1996). Pela mesma editora, sairão este ano os ensaios «Linguagem e Silêncio» e «Extraterritorial».

Provas e Três Parábolas

George Steiner

Gradiva

221 págs., 16 euros

BIBLIOGRAFIA:

«Heidegger», Publicações Dom Quixote, 1990

«No Castelo do Barba Azul», Relógio d’Água, 1992

«Presenças Reais», Presença, 1993

«Antígonas», Relógio d’Água, 1995

«Quatro Entrevistas com George Steiner», Ramin Jahanbegloo, Fenda, 2000

«Errata: Revisões de uma Vida», Relógio D’Água, 2001

«Depois de Babel», Relógio D’Água, 2002

«Gramáticas da Criação», Relógio D’Água, 2002

«Nostalgia do Absoluto», Relógio D’Água, 2003

«Paixão Intacta: Ensaios 1978-1995», Relógio D’Água, 2003

«Barbárie da Ignorância», Relógio D’Água, 2004

«Elogio da Transmissão: o Professor e o Aluno», Publicações Dom Quixote, 2005

«A Ideia de Europa», Gradiva, 2005

«As Lições dos Mestres», Gradiva, 2005

«Os Logocratas», Relógio D’Água, 2006

«O Silêncio dos Livros», Gradiva, 2006

«O Transporte para San Cristobal de A. H.», Gradiva, 2007

«Provas e Três Parábolas», Gradiva, 2008

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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