Voltar ao arquivo
SOL · Crítica e ensaio

Eva, a vida secreta de Hitler

O PRAZER DA LEITURA

Eva, a vida secreta de Hitler

Filho bastardo e de uma relação provavelmente consanguínea. Virgem até aos 40 anos, com uma libido baixa, duas anormalidades genitais e o típico perfil de reprimido. Orador inflamado e possuidor de um raro magnetismo, mas incapaz de qualquer expressão pública de afecto. Homem de hábitos fixos, vegetariano exigente, fanático da ordem e da obediência.  Adolf Hitler foi provavelmente "um homem impotente com uma tremenda energia nervosa", tal como sustentou o seu velho amigo  Putzi  Hanfstangl, ou o fruto de uma ascendência e infância monstruosas, como no romance "O Fantasma de Hitler", de Norman Mailer. Mas para Eva Anna Paula Braun, a mulher com quem casou 36 horas antes de ambos se suicidarem, Hitler foi uma paixão cega à qual ela entendeu dedicar  17 dos seus 33 anos de vida.

Sai agora pela Casa das Letras a mais completa das duas únicas biografias até hoje dedicadas à amante do ditador alemão. Em linguagem acessível e a partir de uma investigação aturada, "A Vida Perdida de Eva Braun", escrito pela jornalista inglesa Angela Lambert em 2006, apresenta uma anti-heroína, alheia à brutal expressão do mal perpetrada pelo objecto do seu amor. Em simultâneo, "a forma como [Hitler] tratou esta jovem – cativando-a primeiro, dominando-a em seguida e destruindo-a por fim – reflecte, a nível microcósmico, o processo de sedução e destruição do povo alemão", defende Lambert.

"[Hitler] escondeu [Eva] de todos, excepto do seu círculo mais íntimo, mas até mesmo aí lhe negou qualquer estatuto social e humilhava-a constantemente." O testemunho, do arquitecto Albert Speer, é um dos muitos registos que Lambert recolheu das mais variadas fontes para suprir a falta de material primário para a sua investigação.

Eva, que nunca se filiou no partido nazi, revela-se alguém que "não foi nem um estereótipo, nem o expoente da feminilidade alemã submissa, nem tampouco o brinquedo maléfico de um tirano." Aqui, a rapariguinha bávara de classe média que conheceu o líder nazi quando tinha 17 anos (ele 40) e era assistente no estúdio do seu fotógrafo oficial, é a amante secreta que sonha em vão com a fama mediática ao jeito das poses glamorosas de Hollywood que imitava na intimidade. Com «A Vida Perdida de Eva Braun», Lambert colocou-a no centro do entendimento psicológico de uma das mais enigmáticas figuras da História.

A Vida Perdida de Eva Braun

Angela Lambert

Cada das Letras

493 págs., 20 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

Continuar a leitura