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SOL · Crítica e ensaio

Escrita sem medida

O PRAZER DA LEITURA

Escrita sem medida

«A gente lê, lê. E vê.» E, através das derivas na escrita e na leitura, vamos efabulando ou descobrindo identidades. Certos livros cumprem-se quando o autor, e com ele o leitor, procura uma espécie de consciência de si mesmo e dos outros incorporada nas paisagens geográficas e humanas. É o caso de todas as obras do antropólogo Ruy Duarte de Carvalho, e do último livro, «Desmedida», que o confirma como uma das vozes mais originais da literatura contemporânea em língua portuguesa.

Tal como o autor refere, estas «crónicas do Brasil» são um «itinerário de observações e de leituras, de acercas e de a-propósitos, uma articulação galopante de casos e comentários, de ideias e de palavras». Uma deambulação feita por alguém, português por nascimento, angolano por opção, «orfão parricida de impérios». Uma revelação de caminhos através do «Brasil de hoje como teatro, o último talvez no mundo, de todas as fases vividas, até agora, da ainda em curso expansão europeia, dita ocidental».

Seguimos Ruy Duarte de Carvalho pelos cenários referenciados no subtítulo do livro: «Luanda-São Paulo-São Francisco-e volta». Caminhamos com ele pelo curso do grandioso rio brasileiro São Francisco, que tomamos como fronteira, «espaço para além de territórios, susceptível de ser transitado e ocupado por gente de fora sem entraves de maior por parte de quem, se for esse o caso, possa já lá estar». Ali mesmo, como em «Vou lá Visitar Pastores», o autor demonstra ser possível uma transumância histórica e a resistência de uma soberania indígena e autónoma. No Brasil, encontra «tudo a coexistir: bandeiras, fronteira, sertões, bioenergia e soja transgénica».

A geografia que o autor abrange neste livro toma a medida das suas «cosmoagonias», para as quais convoca tudo: erudição, vivência e uma «poligrafia». É para ele evidente que não se pode procurar a identidade do Brasil sem a relacionar com a identidade de Angola: «Nós estamos é juntos, no vaivém das balsas, atlânticas até.» Por isso se cruzam histórias da fabulosa rainha Jinga com as de personagens das obras dos brasileiros Guirmarães Rosa ou Euclides da Cunha. Afinal, o que unifica esta «Desmedida», e suscita um grande prazer na leitura, é uma voz que narra como se, à chegada, nos contasse o que leu e o que viu, repleta da «ciência de estar lá».

Desmedida

Ruy Duarte de Carvalho

Cotovia

324 págs., 14 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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