Atlas da virtude
Atlas da virtude
Aos 38 anos, David Mitchell é uma dessas grandes esperanças da literatura anglo-saxónica nas quais a crítica aposta quase tudo. Virtuoso, com um domínio técnico à prova de bala, pertence ainda ao grupo dos autores contemporâneos que investem numa escrita deliberadamente complexa e difícil. «Atlas das Nuvens», o terceiro romance após a estreia literária (em 1999, com «Ghostwritten») chegou agora às livrarias portuguesas. Foi finalista do Man Booker Prize e firmou o talento de Mitchell.
Imagine-se um tempo de acção que abrange desde as navegações no século XIX até um futurista universo ciberpunk no século XXII. Imaginem-se enredos diferentes ao longo de 615 páginas, sempre centrados em personagens que funcionam como reencarnações umas das outras. Primeiro, conhecemos o diário do jurista ianque Adam Ewing e os seus instintos humanitários para com os escravos ou os habitantes de ilhas perto da Nova Zelândia. Seguimos para os anos 30 do século XX e para o relato epistolar das peripécias de um compositor britânico instalado na Bélgica e empenhado em conquistar, e colonizar, um velho músico famoso. Novo corte na narrativa, partimos desta vez para um thriller sobre uma jornalista, Luisa Rey, implicada nos segredos de uma instalação nuclear na América dos anos 70. Após uma agulha até ao universo de um editor num lar de idosos, terminamos com duas ficções científicas distópicas: o testemunho de um clone escravo e a parábola de um pastor que habita um Havai pós-apocalíptico.
Descobrir as pontas que unem as voltas bruscas desta meada narrativa será um prazer à medida da resistência de cada leitor. Vários elementos transitam entre histórias — cartas, discos, livros ou filmes — e Mitchell tem pleno domínio da fluência narrativa. Ainda assim, este romance é um desafio tão exigente que, no «New York Times», o escritor Tom Bissell o apresentou como um exemplo de «virtuosismo andróide». Outra questão ensombra este livro: como é que um escritor ocidental extremamente culto e que faz uma espécie de anuário da literatura ocidental moderna e pós-moderna acaba a defender, no último capítulo, a simplicidade analfabeta de um ilhéu do Pacífico? Mitchell é um virtuoso, mas ainda está longe de ascender a uma universalidade desprendida de moralismo e capaz de emocionar o leitor.
Atlas das Nuvens
David Mitchell
Publicações Dom Quixote
615 págs., 27.75 euros