O ovo ou a galinha
O ovo ou a galinha
É a ficção que imita a realidade ou a realidade que imita a ficção?Como a da origem primeira do ovo ou da galinha, a dúvida é insolúvel porque paradoxal. Bernardo Carvalho, um dos maisestimulantes escritores brasileiros da actualidade, volta a colocá-la no centro do seu oitavo romance, «O sol se põe em São Paulo». Nele, uma velha imigrante nipónica, dona de umrestaurante na Liberdade, o bairro mais japonês de Sampa, aproveita a ignorância de umcandidato a escritor para acertar contas com uma complexa história dopassado. E provar que só se é o que se é, sendo ou parecendo o opostodisso mesmo.
Quando o sol se põe na brutalista São Paulo, ele acaba de nascer nasmaquinais Osaka e Tóquio. Quando uma inusitada violência cerca as duascidades, ela é a expressão de uma «fantasia deformada, amaterialização impotente de querer se imaginar num outro lugar mas jánão saber como retornar a ele». Onde há amor, existe tambémvingança. Quando um escritor ambiciona escrever e profeticamente seantecipar ao futuro, é melhor imaginar antes o passado e ficar calado.Perdidos? Este romance é um jogo e o melhor mesmo é mergulhar nele decabeça.
Como Gonçalo M. Tavares ou Enrique Villa-Matas, embora mais intuitivo do que eles, Bernardo Carvalhoassume o fascínio pelo questionamento dos engenhos implicados na arte de contar histórias. Pertence a esta linhagem que redesenha um futuro para o romance e se une aos leitores através daestima pelos livros. Por vezes, falta-lhes em carne e entranhas o que lhes sobra em osso e pirotecnia. Mas, juntos, formam um clã que enaltece o poder da literatura,apontando ao mesmo tempo que ela «é o que não se vê» e que podeenganar-se. Afinal, defende a velha japonesa, «enquanto os escritoresescrevem, as histórias acontecem em outro lugar».
Contar, mesmo que a traço grosso, o emaranhado de histórias de «O solse põe em São Paulo» seria tirar prazer à leitura.O leitor vai dar por si a virar as páginas com voracidade,capturado pela fluidez ginasticada do ritmo narrativo. Como noobscurecido palco do teatro nô, a acção parte de uma obscuridade e imobilidadeoriginal, «o texto é o corpo» e os bons actores incorporam asmáscaras. Como no dilema do ovo e da galinha, afinal tudo depende do agenciamento dos factos e da posição do expectador.
O sol se põe em São Paulo
Bernardo Carvalho
Livros Cotovia
168 págs., euros