Aqui e agora
Aqui e agora
De várias formas se pode entrar no universo de Saul Bellow. Antes de mais, pelas suas personagens e pelo prazer intelectual de uma escrita mais preocupada com as ideias do que com a costura do enredo. Depois, pelo fulgor de um estilo palpável e radiante que influenciou a literatura norte-americana durante 60 anos (Bellow faleceu aos 90, em 2005; a estreia literária deu-se em 1944) ou pelas permanentes remissões da obra à vastíssima – e canónica - cultura literata do autor. Bellow preferiria qualquer uma destas portas de entrada à da sua condição de autor de sangue judeu. Mas é para aí que nos conduz a sua quarta obra de ficção, «Aproveita o Dia», acabada de chegar às livrarias na colecção reservada pela Texto Editores a grandes autores Prémio Nobel.
Estamos em Nova Iorque, algures perto do ano de publicação do romance, 1956. Wilky Adler (ou Tommy Wilhelm, como decidiu apelidar-se desde o início de uma desafortunada tentativa de carreira em Hollywood) tem 40 anos e, atrás de si, carrega um desastre de vida afectiva, profissional e financeira. «Talvez cometer erros fosse a finalidade da sua vida e a razão pela qual ali estava» a viver no mesmo hotel onde o seu velho, rico e frio pai se pavoneia, crendo-se «o tipo certo de judeu».
Toda a acção de «Aproveita o Dia» decorre na véspera do Yom Kippur (Dia do Perdão), uma das celebrações mais importantes do judaísmo. Bellow refere-o apenas de passagem. Contudo, como estabelece a tradição judia da «teshuvá» (caminho do arrependimento), a Wilky este dia servirá para concluir uma introspecção profunda, trilhar a grande estrada interior e eventualmente tornar-se apto a pedir perdão antes do julgamento. Tudo se passa “aqui e agora”. Não há passado, nem futuro. Só existe «o combate feroz» entre «a alma fingida e a alma verdadeira».
Bellow sempre defendeu ser um escritor americano que, por acaso, era judeu. De facto, «Aproveita o Dia» pode bem ser metaforicamente sobre o fim do Sonho Americano, sobre alienação e sobre a ditadura do capital. Ainda assim, a herança de uma cultura judaica é o seu mais inevitável elemento de identificação. Porque, a partir do judeu Wilky como um nó solto à procura da verdade, Bellow escreve afinal sobre o homem moderno enquanto ser solitário, em permanente auto-crítica, deslocado e condoidamente irónico.
Aproveita o Dia
Saul Bellow
Texto Editores
128 págs., 14 euros