Voltar ao arquivo
SOL · Crítica e ensaio

A grande escrita

O PRAZER DA LEITURA

A grande escrita

Facto: o mercado editorial português está a mudar de modo profundo, como o prova a apresentação, no passado dia 7, do novo grupo editorial, Leya, que reúne oito editoras (entre elas, Asa, Caminho, Dom Quixote e Texto) e pretende publicar, ainda em 2008, três livros por dia. Mas pergunte-se: que vantagens trará este novo cenário de concentração para os leitores interessados não em «bestsellers», mas nos títulos clássicos ou contemporâneos que, mesmo sem grande volume de vendas, representam o que de melhor se fez e faz em literatura? Provavelmente, muito poucas.

Vem isto a propósito da edição recente da antologia de contos «Fugas», de Alice Munro, por uma editora independente de dimensão média, a Relógio D’Água, que possui o mais prestigiante e consistente catálogo de grande ficção e ensaio internacionais (ainda que, por vezes, com traduções de questionável qualidade). Munro nasceu em 1931, na província canadiana de Ontario, cenário privilegiado da sua ficção. Estreou-se com sucesso imediato nos anos 60 e, na década seguinte, a publicação dos seus contos na revista “The New Yorker” levou os norte-americanos a adoptá-la como um dos seus melhores contistas (no «The New York Times» foi qualificada como «um dos colossos vivos do conto moderno»). Entretanto, publicou doze antologias de contos e um romance. Mas, pasme-se, «Fugas», de 2004, é o seu primeiro livro editado em Portugal. Ou seja, durante 40 anos a sua obra foi desconhecida ou não aliciou qualquer editor português.

O estilo único de Munro assenta, tal como se defende na revista online «Salon.com», na estrutura elástica e na conjugação de complexidade e extrema economia no tom das suas narrativas. Também na capacidade de distinguir dimensões misteriosas, pela sua maravilha, absurdo ou violência, no quotidiano mais comezinho. Quer trate de crises ou separações matrimoniais, conflitos de geração, resgates do passado ou vulnerabilidades físicas particulares, Munro aplica a sua acuidade psicológica a personagens em movimento por locais precisos. Aqui, estão todas em alguma espécie de fuga. O segredo da narrativa está contido na ressonância de uma imagem, uma frase ou um determinado acontecimento ao longo do percurso de vida da personagem. No início de Fevereiro, a Relógio d’Água editará outra antologia de Munro: «O Amor de uma Boa Mulher».

Fugas

Alice Munro

Relógio D’Água

263 págs., 15 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

Continuar a leitura