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SOL · Crítica e ensaio

A raiz do medo

O PRAZER DA LEITURA

A raiz do medo

Viena, anos 50. «A cidade cheira a "aventura", a jazz, cafés e gás dos tubos de escape.» Cheira também ao medo de uma geração que vive o dia-a-dia entalada entre a herança do passado próximo, tão glorioso quanto escabroso, e a esperança no futuro, exigente e incerto. Aos 18 anos, Sophie, Hans e os gémeos Rainer e Anna sentem tanta fúria e ódio que, para eles, a prática degenerada da violência só faz sentido se, exactamente, não tiver objectivo nenhum. São eles «Os Excluídos» do romance homónimo da romancista e dramaturga austríaca Elfriede Jelinek, agora editado pela Asa. Uma reflexão incisiva sobre a Aústria no pós-guerra e a destruição total do mito da Mittleuropa, sonhado espaço multicultural de paz e confiança no homem.

Jelinek tornou-se sobretudo conhecida em 2001, com a versão cinematográfica do romance «A Pianista», e logo associada a uma crua ficcionalização de práticas de auto-mutilação e sadomasoquismo mórbidos. Mas, em 2005, quando recebeu o Nobel da Literatura, esta filha de um químico judeu checo que pesquisou armas de guerra e escapou às perseguições nazis, já era tida como uma das mais incómodas e talentosas escritoras contemporâneas. Jelinek, hoje com 63 anos, foi motivada desde a estreia, em 1979, pelo feminismo, pela desmontagem dos lugares-comuns associados aos grandes dogmas ideológicos e pela expressão dos mais inconfessáveis desvios à norma nos desejos humanos. «Os Excluídos» (1980) é um bom exemplo da sua filiação no «laboratório de possibilidades» de Robert Musil ou na provocatória prática crítica de Thomas Bernhard.

Hans (filho de um activista operário morto em Mauthausen), Sophie (a de boas famílias), Rainer e Anna (filhos de um mutilado ex-oficial SS) são a «Santíssima Quatridade» sem qualidades. São capazes de espancar por puro prazer, de cuspir na sopa dos pais, de «cascar nas fuças dos burgueses», até mesmo de matar. Em simultâneo, amam-se. E não abdicam de uma relação masoquista com a cultura e a arte (Anna na música, Rainer na poesia) como implacáveis questionamentos de si próprios e do mundo. No estilo enxuto e certeiro, quase «científico», de Jelinek, as suas acções e pensamentos surgem como se víssemos numa radiografia o mal enquanto patologia com explicáveis origem, sintomas e verdadeira natureza. E, do fundo, não conseguíssemos apagar o medo.

Os Excluídos

Elfriede Jelinek

Edições Asa

223 págs., 19 euros

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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