Mito ou verdade?
Mito ou verdade?
Simone de Beauvoir (1908-1986) e Jean-Paul Sartre (1905-1980), escritores e filósofos franceses, unidos durante 51 anos por um singular pacto afectivo. Simbolizaram um certo entendimento do amor e da razão e os sonhos de uma geração devotada a uma existencialista vivência libertária e à revisão dos papéis sexuais. Nunca casaram, nunca quiseram ter filhos, tiveram (e partilharam) vários amantes e foram fiéis apenas a uma promessa: partilharem todos os detalhes das suas vidas e tornarem-se tão conhecedores um do outro como de si mesmos. À sua volta, semearam um mito: o da relação amorosa e sexual totalmente livre, responsável e aberta. «Sartre e Beauvoir», escrito pela biógrafa Hazel Rowley e recém-editado pela Caderno, é o mais completo documento sobre essa relação. Um testemunho desconcertante não tanto sobre dois génios intelectuais, mas mais sobre a teia de acólitos, traições e abusos que alimentaram como predadores sexuais co-dependentes.
São mais de 400 páginas suportadas supostamente por quase toda a informação antes publicada ou ainda inédita em 2005, ano da primeira edição do livro, sobre Sartre e Beauvoir e pelo menos 14 dos triângulos amorosos em que se envolveram. Um sociológico documento «voyeurista» que a autora apresenta não como uma biografia, mas como «a história de uma relação» (expressão que o editor português chamou para subtítulo, substituindo o não mais brilhante título original: «Tête-à-Tête»).
Devido à disputa lendária entre Sylvie Le Bon de Beauvoir e Arlette Elkaïm-Sartre, as filhas adoptivas (e antes jovens amantes) detentoras dos direitos relativos respectivamente a Beauvoir e a Sartre, o livro foi publicado em duas versões. Apenas nos Estados Unidos, onde as leis autorais são menos restritivas, foi editada a versão completa, contendo alguns dados adicionais referentes a correspondências de Sartre mantidas ainda hoje em segredo. Num texto de estilo pouco rico e por vezes de melosa devoção pelos biografados, ainda que detalhado até à exaustão, Hazel Rowley toma o partido de Beauvoir, mesmo quando explora a incoerência de alguém que se celebrizou pelos textos autobiográficos «sinceros» mas sempre escondeu as suas ligações lésbicas. Sartre, o feio «Homenzinho» chauvinista e narcísico, sai desfavorecido. A inegável verdade histórica daquela que foi considerada a «relação ideal» no século XX, essa surge nua e crua: como um mito.
Sartre e Beauvoir: A história de uma vida em comum
Hazel Rowley
Caderno/Asa Editores
464 págs., 22 euros
Hepburn, o mito
Biógrafo de alguns dos principais ícones do «star system» norte-americano, como Alfred Hitchcock, Laurence Olivier, James Dean, Ingrid Bergman, Marilyn Monroe ou Marlene Dietrich, Donald Spoto (1941) é, ele mesmo, um caso de estudo. «Audrey Hepburn» (no original com o antetítulo «Enchantement»), a completa biografia recém-chegada às livrarias portuguesas, comprova o acesso privilegiado de Spoto a informações inéditas. Capaz de se mover como poucos no submundo dos estúdios e na rede de «íntimos» que privaram com cada estrela, este ex-monge e professor de Teologia aborda as suas vidas com a mesma devoção contemplativa que o fez escrever sobre Jesus ou São Francisco de Assis.
Aqui, a actriz nascida na Bélgica em 1929 é o «duende» e a «corça» de origens aristocráticas que se infiltrou em Hollywood graças a uma elegância e subtileza mais conotadas com um puro ícone europeu do que com um vendável produto norte-americano. Spoto destaca o trabalho que desenvolveu para a Unicef ou a aceitação do cancro que a vitimou em 1993 como marcas da singularidade de Hepburn. Alimenta o mito desligado da verdade humana com certeza escondida sob ele. É como um espectador extasiado em frente da fantasia exibida num ecrã de cinema. Enquanto biógrafo, representa o observador da desformalizada cena cultural pós-Segunda Guerra que se viu impossibilitado de aceder à verdade e à crítica conscienciosa face a uma sociedade do espectáculo criada sobre uma explosiva combinação de clichés recorrentes e singulares representações promocionais.
Audrey Hepburn, A Biografia
Donald Spoto
Oceanos/Edições Asa
304 págs., 19 euros
A verdade de Leni
Fascínio estético e repúdio moral. Poucos criadores do século XX motivaram como a cineasta alemã Leni Riefenstahl (1902-2003) uma recepção tão oposta e interdependente junto dos seus públicos. A genial «operária» da máquina promocional do Terceiro Reich tornou-se um símbolo das reflexões contemporâneas sobre a dimensão moral da criação artística. Daí que este monumental trabalho de Steven Bach, lançado no início de 2007 e recém-editado pela Casa das Letras, seja um exemplo raro do juízo complexo a que se vê obrigado o biógrafo na destrinça imparcial entre verdade e mentira. Um exercício capaz de proporcionar revelações cabais como a da admiração da cineasta por Hitler ou a impassividade com que assistiu ao massacre dos judeus polacos ou recorreu ao trabalho de escravos de etnia cigana que viriam, a maior parte, a falecer em Auschwitz.
No início do século XX, Lytton Strachey criou a «biografia desmistificadora», enquanto André Maurois investia nas biografias decoradas com dados assumidos como fictícios, Gamaliel Bradford defendia as «psicografias» e se multiplicavam as autobiografias. Ao longo do século, as biografias tornara-se-iam uma expressão curiosa do relativismo, afastando-se do oposto conceito de consciência. O trabalho de Steven Bach representa a vários níveis uma inversão nessa tendência.
Bach, em tempos vice-presidente do poderoso estúdio United Artists, conheceu por dentro os interstícios das máquinas de produção de mitos e isso levou-o a aceitar a inevitável interdependência entre arte e poder. «Leni» é, nesta perspectiva, um cuidadoso e inédito retrato da tão contemporânea ligação funcional entre talento e ambição.
Leni, A Vida e Obra de Leni Riefenstahl
Steven Bach
Casa das Letras
469 págs, 25 euros