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Sábado · Crítica e ensaio

Belle Gunness, a mulher que matou 40

O PRAZER DA LEITURA

Belle Gunness, a mulher que matou 40

ou

Belle, a mulher que matou 40

Victoria Kielland imaginou a morte a tomar conta da primeira assassina em série americana. “Os Meus Homens” é uma ficção fatal, com sangue só lá para o fim.

A violência nasce de fora para dentro ou ao contrário? Noruega, Quinta Vermelha, 1876. Brynhild, “tão dócil e boa, tão pronta para o mundo”, tem 17 anos, é criada da casa e entregou-se ao Morgado, de grandes caracóis louros e a cheirar a terra e couro mole, que fez desabrochar nela “uma flor escura”. Ao revelar-lhe que está grávida, recebe um pontapé brutal na barriga e aborta. “Foi estranhíssimo, ela flutuou dentro dela mesma como se não tivesse peso. Um largo sorriso branco. Um momento de proximidade. Algo se soltara.»

Pouco depois, Brynhild emigra para os Estados Unidos, onde será Belle, Gunness por casamento. Na vida real e no romance “Os Meus Homens”, irá tornar-se uma assassina em série — matou (talvez) a maioria dos homens com quem teve contacto sexual, várias crianças (incluindo filhos de sangue, enteados e crianças recolhidas) e pelo menos uma mulher — crê-se que mais de 40 pessoas ao longo de várias décadas. Mas só na segunda ficção escrita pela norueguesa Victoria Kielland (n. 1985) encontramos uma explicação tangível para os seus atos, tão concreta e sensível como a demonstração de que a prática da violência está umbilicalmente ligada à consciência do próprio corpo. Esta crítica contém (inevitável) “spoiler”. A luzir por entre a neve nórdica ou a extensão desolada do solo americano e da solidão do emigrante, o sangue parece vir das entranhas da terra. Para os mais líricos, Victoria Vielland sugere: “Aqueles que amam com todo o seu ser nunca sobreviverão ao amor.”

Primeiro, a história real, vislumbrada no romance. Belle juntou-se à irmã, em Chicago, onde, entre outros empregos, trabalhou num talho. Casou-se, envenenou o primeiro marido e duas filhas para receber os respetivos seguros de vida. Comprou uma quinta no Indiana, dedicou-se à criação de porcos e prosseguiu metodicamente o assassínio em série (perpetrado com veneno, moedores de salsichas ou cutelos afiados) por lucro. Belle acumulou montículos mortuários pela propriedade, para ocultar os corpos desmembrados e decapitados de homens atraídos através de anúncios matrimoniais. Pedia-lhes que não revelassem o paradeiro à família, mas um não lhe obedeceu e o irmão foi procurá-lo. Dá-se um incêndio na quinta, e surgem cadáveres por todos os lados. O dela nunca foi comprovadamente identificado, pelo que ainda hoje subsiste a tese de que poderá ter simulado a morte, vivendo por vários anos algures sob um nome falso.

“Os Meus Homens”, aclamado e premiado na Noruega e acolhido com entusiasmo pela crítica internacional, não é verdadeiramente um “thriller”. Tem intensidade e vibração muito próprias, distantes, por exemplo, de “Higiene do Assassino” (Amélie Nothomb, 1992). A estrutura narrativa serve a (de)composição da estrutura interna. A ação repercute-se no físico de Belle, investigado ao milímetro como estilhaço psicológico, que absorve e ecoa na paisagem exterior. A sequência de acontecimentos é uma inquietação incerta que escorre e se esgueira pela casa (cit). As noites de sexo são “encharcadas em pele até às orelhas, rente aos olhos”; “o vestido comprimiu as suas costuras grosseiras na pele, como lhe deixou uma faixa vermelha em redor da cintura que se foi cravando cada vez mais fundo”; “as mãos brilhavam por dentro, sentia o aviso na pele, aconteceria algo muito pior”; o cheiro “pairava como uma ferida”. Como na melhor ficção gótica sulista, a luz provém da fé e distorce-se em sombras no espaço e manchas no corpo. Como na tensão do policial nórdico, a brutalidade sorri “como se um grande músculo tivesse surgido após abrir caminho à dentada”.

Desengane-se, contudo, o leitor que anseia por sangue. Ele só chegará, explícito, para lá de dois terços do romance. “Os Meus Homens” relata o encarceramento de alguém no labirinto do trauma, cuja única saída é, não o amor ou a vida, mas a entrega progressiva à pulsão de morte. Ela “levava, rente à pele, a crueldade do mundo, mas também a beleza do mundo”, mas “era tudo zombaria”. “Olhou para o mundo e viu-se a si mesma deitada, sozinha, no fundo.” Este romance é brutal, mas compassivo.

“Os Meus Homens”, Victoria Kielland, Dom Quixote, 204 págs, 15.90€

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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