Silvina Ocampo: a feiticeira do dia-a-dia
Silvina Ocampo: a feiticeira do dia-a-dia
São um tesouro da literatura latino-americana. Os contos da argentina Silvina Ocampo apanham qualquer leitor desprevenido.
Usar lentes de contacto verde-choque, ultravioletas. Ver os outros à transparência e em 4D. Imagine como seria, se conseguisse fazê-lo. Ler Silvina Ocampo (1903-1993) é uma experiência semelhante de redescoberta do quotidiano, revelado de forma radical no que pode ter de mais obscuro, logo, mais profundo e insólito. Jorge Luís Borges, grande amigo desta escritora argentina só divulgada ao mundo após a morte, disse que ela nos vê «como se fôssemos feitos de vidro, vê-nos e perdoa-nos». Italo Calvino atribuiu-lhe «uma ferocidade que jamais se separa da inocência». Silvina Ocampo observava o mundo e a psicologia humana como algumas crianças, as suas protagonistas privilegiadas, desmontam e destroem os brinquedos para os perceberem melhor e, só assim, deles usufruírem em pleno. Uma nova antologia, «As Convidadas» (Antígona, 274 págs, 18€), de 1961, confirma-a junto dos leitores portugueses como um dos segredos mais preciosos da literatura latino-americana (a par, por exemplo, de Juan Rulfo).
Nascida na alta burguesia, Silvina Ocampo Aguirre estudou desenho e pintura em Paris, com Giorgio di Chirico e Fernand Léger, antes de, por volta dos 30 anos, se dedicar à poesia, ao conto e ao romance breve. Irmã de Victoria Ocampo (fundadora da revista e editora Sur, marco da literatura moderna argentina), companheira de Adolfo Bioy Casares, influenciadora de grandes como Cortázar, García Lorca ou Bolaño, foi, por vontade e modéstia, eclipsada em vida por todos eles. Talvez por isso pôde concentrar-se, com total agudeza, ironia e liberdade, na procura dos mais subtis sinais da realidade que só se revelam quando projetados pela inteligência e a imaginação na linguagem, no caso poética e ficcional.
No conto «As Convidadas», que titula esta reunião de 44 narrativas breves, a festa de aniversário de um menino é, na ausência dos pais, um desfile só de meninas. Diz a criada que apenas uma levou presente, outra levou o dela de volta para casa, outra tinha gula feroz, outra partiu os brinquedos, outra só disse coisas desagradáveis, outra «sentou-se num canto, como uma cataplasma» e outra tinha cara de víbora. Sopraram as velas, cortaram o bolo em vez do aniversariante, mas, juntas e vindas não se sabe de onde, fizeram dele «um homenzinho». Lapidados como diamantes, os contos de Silvana Ocampo são assim: cenários realistas de personagens e gestos excêntricos, destapados, quase sonhos e segredos, num caldeirão de crueldade e compaixão.