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Sábado · Crítica e ensaio

Ruy Castro: «Existe um santo dos biógrafos»

O PRAZER DA LEITURA

Ruy Castro: «Existe um santo dos biógrafos»

Ruy Castro, maior biógrafo em língua portuguesa, oferece-nos um manual de como passar a vida por escrito. Cheio de técnicas, truques, casos e casinhos, a não perder.

Diz que se trata de um sujeito de barbas brancas, sentado «em alguma nuvem no espaço, entre papiros mofados, rolos de pergaminhos e velhas encadernações me marroquim», o santo dos biógrafos que põe a mão por baixo quando estes passam dias, meses, até anos, à procura de informações maiores ou minúsculas que completem o perfil completo de alguém. Diz que só biografa mortos, porque os protagonistas vivos «podem condicionar, tentar corrigir, e ainda têm algo para viver, o que daria um retrato incompleto». O seu trabalho é, pois, uma paixão necrófila, obcecada em cercar o biografado até conseguir resgatá-lo de volta, num espelho vívido e credível, como fez com o jornalista Nelson Rodrigues («O Anjo Pornográfico», 1992), o futebolista Garrincha («Estrela Solitária», 1995) e a grande Carmen Miranda («Carmen, uma Biografia», 2005).

Ruy Castro, 75 anos, mineiro por acidente de nascimento, carioca de carteirinha, jornalista por 20 anos, escritor há mais de 30, eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2022, é o maior mestre da biografia contemporânea em língua portuguesa. Ocupa-se também de reconstituições históricas, como da bossa nova («Chega de Saudade», 1990, com João Gilberto por figura destacada, e «Rio Bossa Nova, 2006), de Ipanema («Ela é Carioca», 1999), do samba-canção («A Noite do Meu Bem», 2015) ou da modernidade no Rio de Janeiro («Metrópole à Beira-Mar», 2019, e «As Vozes da Metrópole», 2021), escreve romances e assina crónicas (na Folha de São Paulo e no Diário de Notícias). A partir das várias oficinas de escrita e palestras que deu e com recurso a exemplos concretos da construção dos seus livros, sistematizou e compôs «A Vida por Escrito: Ciência e arte da biografia», acabado de chegar às livrarias portuguesas.

Acima de tudo: verdade e informação. Jamais: romanceado, ensaio, interpretação ou abordagem psicologista. Para Ruy Castro, a biografia é o retrato linear, o «organograma básico» da vida de alguém— a reconstituição histórica é uma variante do género biográfico, na qual «o cenário e a época tomam a frente da narrativa, e os personagens é que se vão imiscuindo nela, à medida que chega a vez de cada um».

A escolha do biografado, no seu caso, acontece num «estalo», impondo-se pela inevitabilidade e proximidade. Afinal, o melhor biógrafo é aquele que daria uma biografia interessante, que tenha ele mesmo «drama» vivido e vivência próxima do universo que aborda — por exemplo, como Garrincha, Ruy foi alcoólatra (sem beber desde 1988). Estabelecidas estas premissas, pede-se-lhe nada menos do que «um processo de obsessão cumulativo», uma entrega neurótica ao personagem, dedicação total à pesquisa e escrita, que podem durar anos, mas devem ter um prazo estabelecido.

Ruy admirava-os aos três, e por isso os escolheu, mas «Nelson era vaidoso; Garrincha, doente; e Carmen, ingênua, tudo em alta escala». Convertê-los «às dimensões [contraditórias] dos seres humanos» foi a tarefa máxima e por isso se empenhou em levantar «tudo» o que já se sabia sobre eles, entrevistou centenas de fontes primárias e secundárias, vasculhou todos os pormenores, confirmou todos os testemunhos, organizou a informação por ordem cronológica e, enfim, pôs-se a escrever. Em «A Vida por Escrito», o processo técnico de uma biografia é descrito em detalhe, mas há um segredo que não consta. Ao contrário da generalidade das biografias produzidas em Portugal, as de Ruy não seguem o modelo «como fulano testemunhou» ou «segundo sicrano...», de transcrição «ipsis verbis» de depoimentos. Em vez disso, querem fazer crer ao leitor que está lá, página a página, a acompanhar de forma imersiva os episódios da vida reconstituída, como se numa fita de cinema. As informações apresentam-se diluídas em ambientes, cenas e diálogos significantes e plausíveis, sem notas de rodapé ou obrigatória identificação direta das fontes. Para entender e aprender como o biógrafo brasileiro opera essa magia de verdade, só lendo as suas obras, a melhor escola de todas, ou apelando mesmo ao tal senhor das barbas brancas.

«A Vida por Escrito: Ciência e arte da biografia», Ruy Castro, Tinta-da-China, 197 págs., 16.90€

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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