Como se caçam pianos na Sibéria
Como se caçam pianos na Sibéria
Uma escritora seguiu rastos de pianos no fim do mundo e juntou a história russa e enredos pessoais mirabolantes, numa obra-prima da literatura de viagens.
Verão de 2015, numa tenda de madeira e lona montada na estepe mongol onde há mais cavalos e iaques do que pessoas, entre goles de vodca e repasto de cabra assada com a barriga forrada de pedras quentes, os dedos de uma jovem pianista voaram sobre as teclas de um Yamaha moderno. Foi então que, na assistência, um cineasta alemão convenceu uma escritora inglesa a procurar nos confins gelados da Sibéria um piano clássico, que fizesse jus ao virtuosismo encantatório daquela intérprete. Nos três anos seguintes, Sophy Roberts caçou pianos num dos locais mais inóspitos e de má fama do planeta, reunindo por fim o relato desta aventura pessoal e literária e do passado e presente mais insólitos da Rússia em Os Pianos Perdidos da Sibéria, livro de viagens que mais parece ficção.
Os raros instrumentos encontrados por Sophy Roberts na Sibéria são herdeiros da pianomania iniciada por Catarina, a Grande, no séc. XVIII, e disseminada por todo o império por intérpretes, professores e fabricantes. Esta febre de cultura, cosmopolitismo europeu e orgulho identitário atingiu cedo o leste dos montes Urales, a «terra incognita», e fez que os pianos chegassem até lá, de trenó, em carruagens tiradas por cavalos ou de comboio, na bagagem de comerciantes e exploradores, depois na das famílias de criminosos, dissidentes e exilados nas colónias penais czaristas (mais de um milhão no séc. XIX) ou de condenados a trabalhos forçados no Gulag soviético (três milhões entre 1929 e 1953).
Na pesquisa de como os pianos ziguezaguearam pela taiga siberiana ao sabor de impulsos individuais e convulsões políticas, Roberts foi sendo guiada por «uma espécie de loucura egoísta para terminar o que começara». Colocou anúncios na televisão, rádio e redes sociais, seguiu as informações dadas por particulares e afinadores e usou todos os meios de transporte possíveis.
Procurava um instrumento de «som puro reforçado por uma história íntima comprovável» que pudesse vir a ser tocado pela tal pianista mongol. Mas, porque, na Sibéria, «a força das histórias privadas está sempre presente» e os pianos «cheios de tesouros» (enquanto cofres reais ou simbólicos de muitas famílias), encontrou uma trama impetuosa de personagens, objetos e destinos. Acompanhá-la, página a página de Os Pianos Perdidos da Sibéria, no estilo rico e ágil da autora, é uma aventura de leitura irresumível, a não perder.
Os Pianos Perdidos da Sibéria, Sophy Roberts, Temas e Debates, 416 pp., 22.20 euros