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Sábado · Crítica e ensaio

Mário Cesariny: maldita sinceridade

O PRAZER DA LEITURA

Mário Cesariny: maldita sinceridade

Nasceu há cem anos e significou o muito que a arte portuguesa perdeu asfixiada pela ditadura e pelo preconceito. Ainda hoje respira, Mário Cesariny, por sobre a realidade plana.

Em 1947, Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006) chegou junto da casa de André Breton em Paris e leu num letreiro: «Não quero entrevistas, não quero isto, não quero aquilo.» Deixou lá um papel escrito: «Não quero entrevistas, não quero isto, não quero aquilo. Quero falar consigo.» Voltou dias depois e foi recebido pelo papa do surrealismo. O que se sucedeu prova uma das impossibilidades intrínsecas de um grupo surrealista português. Mário dirá que António Pedro apareceu logo a seguir e aburguesou o pedido de apoio a Breton, transformando a possibilidade de criação de uma revista modesta num luxuoso delírio: impraticável.

O pai queria-o a suceder-lhe na profissão de ourives, jamais pianista (proibiu-o de ter lições com Fernando Lopes Graça, que até eram grátis porque revelava talento), mas deixou-o inscrever-se na Escola António Arroio, num curso de cinzelagem. Foi lá que Cesariny conheceu alguns dos que, em outubro de 1947, no Café Mexicana, formaram o 1º Grupo Surrealista de Lisboa (Pedro, Azevedo, Domingues, França, Pereira, O'Neill e Vespeira), de que se desvinculou logo em 1948 (especula-se que porque António Pedro aventou a sua homossexualidade). Defendeu mais tarde que uma trupe surrealista portuguesa nasceu condenada, porque entalada entre o individualismo dos presencistas e o gregarismo dos neorrealistas, mas, sobretudo, por a vida ser mais válida que as garras da ditadura. Também terá pesado o provincianismo e a velada luta de classes que, na arte portuguesa, mina qualquer agregação coesa entre artistas. A tentativa de afirmação de outro grupo foi saindo furada e, nos finais de 1950, já Cesariny não quis integrar os herdeiros grupos abjecionistas. Foi, na verdade, um solitário. O seu espólio, hoje na Fundação Cupertino de Miranda, testemunha uma peculiaridade comprovável na mostra “Mário Cesariny: Em todas as ruas te encontro”, ali patente até setembro de 2024.

Cem anos após o nascimento, Cesariny é celebrado como militante surrealista português mais genuíno e mais célebre, o que ele abominaria. Talvez aceitasse ser o mais sincero, logo ingénuo. O que se adivinha na obra plástica e poética que deixou é ter sido movido, na génese, por um desejo de despojamento de virtuosismo. De onde lhe veio o impulso? Descortinamos a resposta em «A marca do surrealismo», texto onde Alexandre O’Neill relata a vontade de «sair do beco» característica do 1º Grupo Surrealista, a partilha com Cesariny do fascínio pelo uso do absurdo, para «desmontar a realidade aparente e voltar a montá-la numa realidade claramente teratológica», monstruosa, porque excecional.

Na criação da imagem (que subsume a pintura e a poesia), Mário Cesariny recorreu ao automatismo surrealista para, graças ao murmúrio do acaso e do sonho, desfazer qualquer possibilidade de real figurado e aceder a uma sobre-realidade — como nas suas «sismofiguras», de olhos fechados, com a caneta ou lápis reproduzindo sobre o papel a trepidação do movimento do elétrico. Praticou a experimentação artística como «uma acumulação de opacidades», um «ver cego» (José de Lima de Freitas). Seriíssimo na teorização do gesto, desejou-o puro em espontaneidade, liberto e livre.

301 c.

Porque o Surrealismo é o que existe de mais parecido com a poesia. Não se ensina, não é possível. Tudo o que é pedagógico é muito mau. Tudo o que nasce como revolta é um tormento. O Surrealismo foi um convite à poesia, ao amor, à liberdade, à imaginação pessoal.

Entrevista a Francisco Vale, «JL», 1982

269c.

Convenhamos meu amor convenhamos / em que estamos bem longe de ver pago todo o tributo devido à miséria deste tempo / e que enquanto um só homem um só que seja e ainda que seja o último a existir DESFIGURADO / não haverá Figura Humana sobre a terra

“Corpo Visível”, 1950

240c.

Alegre triste meigo feroz bêbedo / lúcido / no meio do mar // Claro obscuro novo velhíssimo obsceno / puro / no meio do mar // Nado-morto às quatro / morto a nada às cinco / encontrado perdido / no meio do mar / no meio do mar

“Radiograma”

156c.

entre nós e as palavras há perfis ardentes / espaços cheios de gente de costas /altas flores venenosas / portas por abrir

“YOU ARE WELCOME TO ELSINORE”, 1957

200c.

Em todas as ruas te encontro / Em todas as ruas te perco / conheço tão bem o teu corpo / sonhei tanto a tua figura / que é de olhos fechados que eu ando / a limitar a tua altura

«Pena Capital», 1957

Importante:

“ para título de poema (a sair entre aspas)

« para título de livro (a sair em itálico)

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Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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