As coisas como elas são
As coisas como elas são
As novelas de Henry James são como charadas a decifrar sobre a moralidade das personagens e o significado do destino. As soluções estão na própria vida.
Talvez o leitor já tenha sentido isto: que existe alguma coisa, algures, pronta a manifestar-se na sua vida, de súbito, como um raio, e a mudá-la para sempre. «A Fera na Selva» é sobre um homem, John Marcher, que pressentiu isto mesmo: uma espécie de animal selvagem, camuflado na folhagem, estava só à espera do melhor momento para saltar sobre ele. Confidenciou-o a uma amiga, May Bartram, que lho relembra quando se reencontram por acaso, dez anos depois. O cenário é Inglaterra no final do século XIX e o enredo seguinte, intricado de duplos sentidos, é a história fascinante de um amor desencontrado. Considerada uma obra-prima, «A Fera na Selva», novela curta do norte-americano Henry James, datada de 1903, regressa agora às livrarias portuguesas (a última edição, pela QuidNovi, é de 2010). A tradução, um reconhecido desafio, é assinada por Ana Maria Pereirinha.
Henry James (1843-1916) é mais conhecido pelo romance «Retrato de uma Senhora», adaptado ao cinema por Jane Campion em 1996, com Nicole Kidman como Isabel Archer, a protagonista. Mas o que o firma como um dos maiores ficcionistas de sempre talvez sejam o romance «A Taça Dourada» (onde tudo é apresentado do ponto de vista das personagens) e as novelas «A Volta no Parafuso» (de leitura obrigatória por quem gosta de ficções de terror) e «A Fera na Selva». James descreve como um mestre e o estilo, só aparentemente simples, é cirúrgico, todo posto ao serviço da ambiguidade dos estados e das considerações explícitas ou não explícitas da personagem, que a atingem (e a nós também), como a John Marcher, «como se fosse a continuação de algo de que perdera o início». Suprema alegoria, «A Fera na Selva» lê-se de um fôlego, mas fica na memória para sempre. Como explicou o crítico Alstair Fowley: «A tarefa do leitor consiste em unir as peças de uma história que se ajuste aos estados de consciência das personagens. A sua gradual apreensão, como a sua chegada gradual aos pensamentos, é a sensação da própria vida.»
«A Fera na Selva», Henry James, 101 págs., 9.90€