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Sábado · Crítica e ensaio

Céline: a guerra trancada na cabeça

O PRAZER DA LEITURA

Céline: a guerra trancada na cabeça

O romance «Guerra» resume o drama e as contradições da vida de Céline. O destino rocambolesco do original e o enredo autobiográfico merecem um filme de aventuras.

«Guerra», escrito em 1934, inicia-se com o relato da lesão que, duas décadas antes, Céline (pseudónimo de Louis-Ferdinand Destouches, 1894-1961) sofreu na sequência de uma missão de reconhecimento no campo de batalha na Flandres e que o condenou a cefaleias violentas e a zumbidos ininterruptos, um comboio de dor a percorrer-lhe um circuito dentro da cabeça durante toda a vida. Esboço de 250 folhas, manuscrito de um jato, com abreviaturas, rasuras e correções em entrelinhas (as nove primeiras páginas perderam-se, muitas palavras são de difícil decifração e algumas, poucas, ilegíveis) foi, entre pilhas de outros papéis, abandonado pelo escritor, colaboracionista e antissemita, em fuga para a Alemanha nazi aquando da libertação de Paris, em 1944. Até ao leito de morte, Céline queixou-se de que lhos haviam pilhado do apartamento de Montmartre. Afinal, em 2006, o espólio foi entregue anonimamente por um ex-resistente ao crítico de teatro Jean-Pierre Thibaudat, com uma única condição: este só o poderia divulgar após a morte da viúva (e segunda mulher) de Céline, Lucette Destouches — sendo de esquerda, o «doador» não queria que Lucette enriquecesse à conta da ficção céliniana. Lucette faleceu em 2019, a existência de «Guerra» foi revelada em 2021, bem como a das cerca das cerca de seis mil restantes páginas inéditas, incluindo as de «Londres», que lhe completa a narrativa, e as dos manuscritos em trabalho de «Casse-Pipe» e «Morte a Crédito» (que, com «Viagem ao Fim da Noite», formam o que Céline considerava o seu tríptico «chef d'oeuvre»). Editadas em França pela Gallimard, as obras têm direitos adquiridos para Portugal pela Livros do Brasil, que recém-publicou «Morte a Crédito» e este «Guerra», com tradução de Diogo Paiva.

Ferdinand acordou no campo de batalha, sozinho e ferido, entre os cadáveres dos companheiros. Antes mesmo de se aperceber disso, tinha a boca e a orelha colada à terra com o sangue. No meio, um «barulho imenso» contra o qual de nada servia revoltar-se. A metáfora traduz o epicentro de Céline: um grito antimilitarista obsceno de tão cru e sofrido, uma ruminação filosófica raivosa e fracassada sobre o mal e o absurdo. «Já não devia nada de nada à humanidade, pelo menos àquela em que acreditamos quando temos para aí vinte anos», diz mais à frente Ferdinand, a personagem que é evidente «alter ego» do escritor, neste monólogo romanceado da sua convalescença num hospital de campanha.

Escrito dois anos após «Viagem ao Fim da Noite», da qual prossegue o balanço picaresco e iniciático, «Guerra» é a prova acabada da importância do trauma vivido na Grande Guerra, da qual saiu desmobilizado, «reformado» e condecorado. Nada a ver com «Carnet du cuirassier Destouches», o diário, insípido e curtíssimo, do jovem soldado de cavalaria de 19 anos, publicado postumamente (1965). Céline, que se forma em medicina, jamais perderá «o humor dos homens desesperados» (François Gibault, biógrafo e autor do prefácio de «Guerra»). Deitado na enfermaria, Ferdinand tem poucas certezas, mas sabe que «na vida, o mais importante é ganhar o seu próprio tom, mesmo para o assassino».

Sem as reticências que pontuam a torrente dos outros romances de Céline, a narrativa de «Guerra» não perde alento nem por um parágrafo, como se estivesse ela mesma, entre a doença e a guerra, suspensa do tempo, bombardeada por dentro e por fora, mas protegida. O dia a dia é descrito com detalhe realista, mas separam-se, no estilo céliniano, a voz do narrador e a narrativa em si mesma, o que é visto e o que já vem tateado, experimentado por dentro. Aqui e ali, o leitor ri (como não rir sempre que a enfermeira L'Espinasse surge, na calada da noite, para «espancar o macaco» e espantar os demónios), noutras contrai-se de angústia (por que prefere ela os mutilados? por que atrai tanto a morte?). Nada é simples em «Guerra», como nada é simples em Céline. Muitas vezes, é sublime; ainda hoje, de uma forma inédita.

«Guerra», Céline, Livros do Brasil, 147 págs., 16.65€

© Filipa Melo · Todos os direitos reservados.

Texto fornecido pela autora. A data indicada provém do nome ou pasta do ficheiro original.

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