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LER · Crítica e ensaio

Dostoiévski e o destino da Grande Rússia

O PRAZER DA LEITURA

Dostoiévski e o destino da Grande Rússia

Fiódor Dostoiévski acreditou que a Rússia unificaria o mundo, graças a uma natural inclinação para a verdade e a fraternidade. É hoje impossível esquecer como essa dimensão de publicista e ativista social permeia a obra de ficção, ainda que não lhe turve a grandeza literária. Está tudo no Diário do Escritor. Nele, , Dostoiévski procurou responder à ordem do tempo e ao povo, projetando e projetou profeticamente a tragédia russa.

Texto de Filipa Melo

Em novembro de 1880, três meses antes de morrer, Dostoiévski confidenciou ao amigo Sergey Aksakov: «Perante a intenção de me ocupar, no próximo ano, da edição do Diário, muitas vezes e por muito tempo rezei a Deus, de joelhos, para me dar um coração puro, uma palavra pura, sem pecado, sem inveja e incapaz de irritar.» Por fim, livre dos problemas financeiros que o obrigaram durante toda a vida a escrever ficção para sobreviver, Fiódor publicou, desde 1876, como edição mensal independente, uma espécie de revista ou jornal pessoal, onde apresentou direta e livremente aos leitores anotações quotidianas sobre o que lia, ouvia e pensava sobre acontecimentos concretos. Sem o filtro das personagens, é ele mesmo que se expõe, mas sempre à procura da aprovação do público. Diário do Escritor chegou a atingir uma tiragem de seis mil exemplares e deu azo a uma correspondência intensa com anónimos. Recém-editado pela Relógio d’Água, com tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, revela o ideário moral, religioso e político do escritor, um arquipélago exposto de forma não linear, centrado na missão de uma Rússia ideal.

No mesmo período, Dostoiévski perdeu um filho, Aleixo, com três anos, escreveu e publicou Os Irmãos Karamázov, onde, como nas outras três obras-primas, Crime e Castigo, O Idiota e Os Demónios, explorou a comédia humana enquanto tragédia criminal (Pierre Assouline). A 8 de junho de 1880, proferiu o famoso discurso de homenagem diante do monumento a Alexandr Púchkin, na Praça Strastnaya, em Moscovo — incluído na coletânea Diário do Escritor. Afirmou, então: «Em toda a obra de Púchkin sente-se a fé no caráter russo, a fé na sua potência espiritual, e a fé dá-nos também esperança, uma grande esperança no homem russo. […] Se a nossa ideia for uma fantasia, Púchkin dá, pelo menos, um fundamento a esta fantasia.» A multidão aplaudi-o com fervor e até o rival Turguéniev, inflexível ocidentalista, o abraçou com lágrimas nos olhos (assegura ele).

Dostoiévski assumiu-se como herdeiro do poeta nacionalista, profeta de um tom russo, «novo e sincero», curvando-se, humilde, na direção do solo natal e da missão superior do seu povo. Aquilo a que o biógrafo Joseph Frank chamará «autoenganos sociopolíticos» será, afinal, o testamento mais intencional do escritor, de que se encontram ecos, por mais adulterados em relação à mensagem original, nos movimentos radicais revolucionários (comunismo soviético, polpotismo e maoísmo) e, ainda hoje, no delírio imperialista das ações de Vladimir Putin e das justificações de Siergei Lavrov.

No enredo inventado por Ivan Karamázov, o cardeal Grande Inquisidor encarcera Cristo, regressado à Terra. Depois de o acusar de toda a infelicidade do mundo e de o humilhar, liberta-o da execução na fogueira, tal como o czar Nicolau I salvou in extremis os intelectuais radicais do círculo Petrachevski. A 22 de dezembro de 1849, prestes a encarar o pelotão de fuzilamento, Fiódor Dostoiévski, o agitador de 28 anos, teve uma epifania: a verdadeira revolução era interior e imperecível, não dependia do intelecto e advinha do confronto com a inevitabilidade do pecado e da morte. Por isso, escreveu: «Não me lembro de ser tão feliz como naquele dia.»

Nos quatro anos seguintes, de trabalhos forçados na Casa dos Mortos (Sibéria), a leitura do Novo Testamento, entre clarões epiléticos, completou a revelação. Como Ivan, o escritor identificou a força do milagre, do mistério e da autoridade. Repudiou o romantismo libertário que o motivou na juventude. Em contrapartida, pregou antes a necessidade de submissão, a humilhação e o sofrimento como vias de regeneração, o sacrifício de si mesmo em prol dos outros, a fraternidade.

Bem pôde Nabokov acusá-lo, mais tarde, de só compor personagens-fantoches, «meras ideias à semelhança de pessoas», mergulhados até ao pescoço na corrente de artificialismos e definições de que o autor inteiramente dependeu, «sem as apoiar em nenhuma prova». Dostoiévski, que ditava e nunca revia o que escrevia, não tinha preocupações estilísticas, de detalhe ou tipificação realistas. Parte substancial das suas ficções era composta por discussões, que interrompiam a ação como se fossem questões que o autor coloca a si mesmo enquanto escreve colocadas pelo autor a si mesmo; cada figura que cria é criada era um laboratório progressivo de contradições e tentações, de manifestações errática do destino, da moral e do Mal.

O que mais lhe interessava era perceber o que era tornar-se pessoa, o material de interesse humano, emoldurado por um sentido último («o fundo divino do ser»), esbatido na comunhão com todos e cada um, sem barreiras sociais. É daí que advêm a plasticidade, a índole polimorfa, polifónica e dialógica das personagens de Dostoiévski, o que mais atrai e garante a identificação universal dos leitores. Ou, como defendeu David Foster Wallace, o mais importante é que elas estão vivas, «as melhores de entre elas vivem dentro de nós, para sempre, uma vez que as conhecemos». Paradoxalmente, o conjunto da obra impregna-se do «veneno ideológico» de uma mensagem e de uma profissão de fé: a de que a verdade possível (pravda, de ordem prática) e a verdade das verdades (istina, de ordem divina) foram reveladas na Rússia oitocentista, e que esta devia transmiti-las ao mundo.

No tempo dos Cadernos do Escritor, a Rússia vive, a dois ritmos, um decisivo período de transição. Em 1877, Dostoiévski defende, no ensaio «Confissões de um Eslavófilo»: «Nós, as pessoas com fé, supomos que só na Rússia residem os princípios capazes de resolver a questão fatal europeia das classes inferiores, sem batalhas e sem sangue, sem ódio e maldade, e que a Rússia dirá a sua palavra quando a Europa já estiver inundada pelo seu próprio sangue porque antes disso ninguém na Europa seria capaz de ouvir esta palavra, ou não a compreenderia.» Para confirmar esta profecia, aponta a emancipação dos servos (22,5 milhões libertados em 1861, preservando-se, contudo, a propriedade dos latifúndios) e «a nossa fraternidade como qualidade inata e natural, saindo cada vez mais à superfície de baixo de tudo o que, durante séculos, a oprimia».

A par destas «manifestações inegáveis da força espiritual russa», Dostoiévski confia na ação reformadora do czar Alexandre II (n.1818, reinado 1855-81) que é, para mais, um reconhecido benfeitor de crianças e órfãos — a pedra de toque das preocupações sociais do escritor. A abolição (parcial) da censura, a autonomização das universidades, a reestruturação administrativa (sobretudo o sistema de autogoverno local, zemstvo), a reforma judicial baseada no sistema francês (novo código penal, julgamentos em tribunal aberto, com participação de jurados e advogados e divulgação pública — grande parte dos Cadernos é dedicada à análise de processos judiciais de crimes em família) e a reforma militar (serviço militar obrigatório e universal) acompanham o investimento nas vias de comunicação, a industrialização e o incremento da economia. Mas o impulso liberalizador de Alexandre II, vítima de várias tentativas de assassinato, perde alento de ano para ano, a opinião pública impacienta-se e os movimentos extremistas recrudescem. «Tudo se desune, se isola, cada um deseja inventar alguma coisa própria, original, inédita. […] Entre nós, toda a gente está à espera de não sei quê. No entanto, não há concórdia moral em quase nada.»

O que poderá, então, unir a Grande Rússia, segundo Dostoiévski? A verdadeira revolução do amor cristão: a da fé e da obediência de todos a um fim comum, sob orientação autocrática e ortodoxa. Só assim se poderá satisfazer de modo genuíno a necessidade humana de liberdade e segurança, a que a pragmática Europa pós-iluminista, corroída pela racionalidade autossuficiente e pelo niilismo ateu, não foi capaz de responder, atolando-se em violência, egoísmo, orgulho e disparidade social.

Para o escritor, a Rússia, sucessora de Roma e Constantinopla, tornar-se-á a capital de uma fé ao serviço de toda a humanidade. Os estratos superiores da gente culta russa deverão transplantar o melhor das ideias europeias que assimilaram («Nós, os russos temos duas pátrias: a nossa Rússia e a Europa») e ter por demais certo que o povo, por incomparável capacidade de sofrer e perdoar e de «largueza de visão», conhece «o seu Cristo e o seu Deus» bem melhor do que eles. Dostoiévski instiga-os: esqueçam o materialismo e o consumismo, a procura do bem-estar e do ócio, o individualismo feroz e o niilismo ateu, esse «farelório idealista» preconizado pelos ocidentalistas: concentrem-se, sim, na nobreza do «hábito de trabalhar» e na glória da fé.

A Grande Rússia é a mesma em todo o lado e recanto, acolhendo e compreendendo com naturalidade aqueles que a adotem, dada a sua original aptidão para uma consciência universalista. Está, por isso, «num imparável processo de formação», predestinada à passagem para o comunismo, evolução natural da inclinação das suas gentes para a «vizinhança forte», o consenso interno, a anulação dos propósitos individuais. Esta derivação ortodoxa dostoiévskiana do socialismo cristão inspirado por Fourier, o culto revolucionário do coletivo, é a visão ambivalente que, como defenderá Eric Voegelin (Nova Ciência Política), «inspira[rá] uma ditadura russa do proletariado, que, na sua conquista do mundo, desabrochará no reino marxista da liberdade».

Hoje, as teorizações geoestratégicas do eslavófilo Fiódor Dostoiévski apresentam-se também dramaticamente ingénuas. A nova época, diz ele, chegará quando a Europa se convencer de que a Rússia não quer conquistar nada, muito menos pela força, «e se decidir a descobri-la, como, em tempos, descobriu a América». No final do século XIX, um tempo russo «tão nacional, tão unificador, tão patriótico», a Questão Oriental, o conflito balcânico, «discórdia primitiva e grosseira entre os povos», é a «fonte de todos os problemas políticos, mal-entendidos e preconceitos da Europa». Resolver-se-á de vez com a anulação definitiva de qualquer pretensão otomana, e com a união da tribo eslava pela fé comum e pelos laços de parentesco com o «grande e imponente espírito russo», expandindo-se pelos Balcãs e pelo Cáucaso, tocando os minaretes de Constantinopla e as águas mediterrânicas.

A Rússia, protetora de todos os cristãos ortodoxos, preocupa-se com os seus «irmãos sacrificados», anseia dar-lhes «apoio desinteressado e generoso», unidos sob a sua liderança, não necessariamente política e, sobretudo, não violenta. «Ao ganhar força, mesmo muita força, em resultado da aliança com os povos por ela libertados, a Rússia não se vai atirar à Europa com a espada, não ocupará nem lhe anexará nada.» O império russo será espiritual, messiânico, salvador graças à difusão de uma nova palavra, saudável e ainda inédita, «proferida para o bem e a verdadeira união de toda a humanidade». Em junho de 1977, Dostoiévski conclui: «Quem acredita na Rússia sabe que esta aguentará absolutamente tudo. […] A vocação da Rússia é tão elevada, e o seu pressentimento desta vocação tão claro (sobretudo nesta época e neste momento) que é necessário estar acima das dúvidas e dos receios. “Aqui está a paciência e a fé dos santos”, como foi dito no livro sagrado.»

Talvez os leitores portugueses, familiarizados com o imaginário imperialista de Camões, Vieira ou Pessoa, sejam dos mais bem colocados para aceitarem a dimensão ideológica da obra de Dostoiévski e, apesar do contexto atual, entenderem as reflexões e ideias expressas no Caderno do Escritor como intenções, acima de tudo, espirituais e religiosas, não políticas. O escritor russo autoproclamou-se guia do seu povo («poeta no sentido antigo e total da palavra: vates, poeta, profeta», Melchior de Vögué, O Romance Russo). Defendeu as «estruturas sociais mais reacionárias em nome dos princípios mais liberais» (Joseph Frank). «Não se limitou a prever e a descrever a revolução: deu-lhe uma chave universal, desenhou-lhe as leis e os princípios, o segredo e a receita política.» (Liudmila Saraskina, Magazine Littéraire, nº495) Mas foi também o protagonista de uma biografia de drama e heroísmo, o jogador compulsivo, o eterno endividado, e o criador de hediondas personagens, personificações de todos os desfeitos... e russas até à medula.

Dostoiévski perseguiu durante toda a vida a sua Dulcineia russa. Confundiu moinhos com gigantes, teve sonhos e impulsos febris de cavaleiro da revelação. Contudo, foi deste quixotesco e corajoso engano que nasceu a universalidade das suas ficções, tão humana e compassiva. Como o Cristo de Ivan Karamázov, o escritor recusou-se a transformar pedras em pão.

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