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LER · Crítica e ensaio

Como escrever? De A a V, de escritores para candidatos à escrita

O PRAZER DA LEITURA

Como escrever? De A a V, de escritores para candidatos à escrita

Amor

“A melhor metáfora que conheço para o que é ser-se um escritor de ficção está em Mao II, de Don DeLillo, quando ele descreve um livro em processo de escrita como uma espécie de bebé horrendamente aleijado que segue o escritor por todo o lado, sempre a rastejar atrás dele (arrastando-se do outro lado do piso de restaurantes onde o escritor está a tentar comer, espreitando aos pés da cama logo de manhã, etc.), terrivelmente defeituoso, hidrocefálico e sem nariz, com braçadeiras nos braços e incontinente e retardado e escorrendo líquido cefalorraquidiano pela boca, enquanto choraminga, balbucia e pedincha junto do escritor, querendo amor, querendo exatamente o que a sua monstruosidade lhe garante: a atenção completa por parte do escritor.

O tropo do bebé aleijado é perfeito porque captura a mistura de repulsa e amor que o escritor de ficção sente por aquilo em que está a trabalhar. A ficção sai sempre tão terrivelmente defeituosa, traindo tão hediondamente todas as suas espectativas — uma caricatura cruel e repelente da sua perfeita conceção — sim, isso mesmo: grotesca porque imperfeita. E, no entanto, é sua, a criança é você, e você ama-a, adora-a e limpa o líquido cefalorraquidiano do queixo frouxo com o punho da única camisa limpa que lhe resta (você só tem uma camisa limpa porque não lava a roupa há três semanas porque, até que enfim, esse capítulo ou personagem parece estar prestes a compor-se e você tem pavor de desperdiçar tempo a fazer outra coisa que não seja trabalhar nele, porque se se distrair por um segundo irá perdê-lo, condenando o bebé à monstruosidade perpétua). E, portanto, você ama o bebé aleijado, tem pena dele e cuida dele; mas você também o odeia — odeia — porque ele é deformado, repelente, porque algo grotesco aconteceu no parto da cabeça à página; odeia-o porque a deformidade dele é a sua deformidade (já que, se você fosse um melhor escritor de ficção, é claro que o seu bebé se pareceria com um daqueles bebés de anúncio de catálogo de roupas para bebé, perfeito e cor-de-rosa e com todo o líquido cefalorraquidiniano contido) e aquele hálito tão hediondo e avassalador é uma acusação devastadora contra si, a todos os níveis... e, portanto, você quer que ele morra, ainda que o mime, limpe e embale, e às vezes até lhe aplique a CPR quando parece que a própria monstruosidade lhe obstruiu a respiração e ele pode de facto morrer.

Tudo isto é lixado e muito triste, mas, ao mesmo tempo, também é terno e comovente, nobre e bestial — é um tipo de relacionamento genuíno — e, até mesmo no auge da sua monstruosidade, o bebé aleijado de alguma forma toca e desperta o que você suspeita serem algumas das suas melhores facetas: facetas maternas, escuras. Você ama muito o seu bebé. E quer que os outros também o amem quando, finalmente, chegar a hora de o seu bebé aleijado sair e enfrentar o mundo.”

David Foster Wallace, “The nature of fun”, Fiction Writer Magazine, Setembro 1998

Auto-avaliação

“Qualquer pessoa moderadamente familiarizada com as exigências da composição dispensará os detalhes da história; como ele escreveu e lhe pareceu bem o que havia escrito; leu e lhe pareceu hediondo; corrigiu e rasgou; cortou; acrescentou; entrou em êxtase; em desespero; teve noites boas e más manhãs; agarrou ideias e perdeu-as; vislumbrou o livro inteiro à sua frente e este evaporou-se; encenou papéis enquanto comia; disse falas enquanto caminhava; depois chorou; depois riu; hesitou entre este estilo e aquele; ora preferia o heróico e pomposo; ora o claro e simples; agora os vales de Tempe; depois os campos de Kent ou Cornwall; e não conseguia decidir se era o génio mais divino ou o maior tolo do mundo.”

Virginia Woolf, Orlando

Bisbilhotice

“Toda a literatura é pura bisbilhotice.” Truman Capote

Caderno

“Tenha sempre consigo um caderno. E eu quero dizer sempre. A memória de curto prazo apenas retém informação durante três minutos. A menos que a anote no papel, poderá perder uma ideia para sempre.” Will Self

Compromisso

“Se a literatura não é tudo, não vale uma hora de sofrimento. É isso que quero significar por ‘compromisso’. Ela definha se a reduzirmos à inocência, às coisas fúteis. Se cada frase escrita não ecoa a todos os níveis do homem e da sociedade, ela não significa nada. A literatura de uma época é uma época suportada pela sua literatura. […] A sua perfeição é a de querer ser tudo sem procurar esterilmente a perfeição. Só um todo pode ser belo, e aqueles que não compreendem isso — seja o que for que tenham dito —, não é em nome da arte que me atacam: é em nome do seu compromisso particular. […] É necessário querer tudo se se espera fazer alguma coisa. […] Um escritor não tem nada nas mãos, nada nos bolsos. Se possui um baralho de cartas, é necessário que primeiro comece por mostrá-lo. […] Um espelho crítico. Mostrar, demonstrar, representar. É isso o compromisso. Depois as pessoas olham-se e fazem o que querem.” Jean-Paul Sartre

Conexões

“Escrever uma história ou um romance é uma maneira de descobrir uma sequência na experiência, de tropeçar em causas e efeitos nos acontecimentos da vida de um escritor. Tem sido esse o meu caso. Conexões emergem lentamente. Como pontos de referência distantes dos quais nos aproximamos, causas e efeitos começam a alinhar-se, a aproximar-se. Experiências indefinidas demais para serem reconhecidas por si mesmas associam-se e apresentam-se como uma forma superior. E, de repente, uma luz é lançada em volta, como quando o comboio faz uma curva, mostrando que uma montanha de significados se foi erguendo atrás de si ao longo do caminho, erguendo-se ainda, mas já comprovada através da retrospetiva.” Eudora Welty

Conto

“O conto é como a fotografia, o romance como o cinema.” Julio Cortázar

Despir

“O autor trabalha desde anteontem no encadeamento lógico e ideológico dos dezassete tomos da sua obra de reconstrução, e já tem prontos dez volumes para a publicidade. Mas é necessário a quem reedifica a sociedade saber primeiro se ela quer ser desabada a pontapés de estilo para depois ser reedificada com adjetivos pomposos e advérbios rutilantes. Para isso, o primeiro avanço é pô-la nua, escrutar-lhe as lepras, lavrar grandes atas das chagas encontradas, esvurmar as bostelas que cicatrizam em falso, escoriá-las, muito cautério de frases em brasa. É o que se faz nas folhas preliminares desta obra violenta, de combate, destinada a entrar pelos corações dentro e a sair pelas mercearias fora.” Camilo Castelo Branco

Diversão

“No início, quando você começa a escrever ficção, todo o esforço é divertido. Não espera que mais ninguém o leia. Escreve quase só para se libertar. Para permitir-se as suas próprias fantasias e lógicas desviantes e escapar ou transformar partes de si mesmo de que não gosta. E funciona — e é incrivelmente divertido. Então, se tiver sorte e as pessoas gostarem do que faz, e se até começar a ser pago por isso, a ver as suas coisas transcritas profissionalmente, encadernadas, revistas, resumidas e até lidas (certa vez) no metro da manhã por uma rapariga bela e desconhecida, tudo lhe vai parecer ainda mais divertido. Por um tempo. Depois, as coisas começam a ficar complicadas e confusas, para não dizer assustadoras. Agora, sente que está a escrever para os outros, ou pelo menos espera que sim. Já não escreve apenas para se divertir, o que — já que qualquer tipo de masturbação é um ato solitário e vazio — provavelmente sabe bem. Mas o que é que substitui o móbil onanista? Você gostou muito que a sua escrita fosse apreciada por outras pessoas e sente-se estimulado porque recebem bem o que vai escrevendo. A motivação puramente pessoal começa a ser suplantada pelo desejo de ser amado, por pessoas bonitas que nem sequer conhece, que o admiram e consideram um bom escritor. O onanismo abre caminho para a tentativa de sedução, como motivação principal. Mas a tentativa de sedução é um trabalho árduo, cuja satisfação é suplantada por um terrível medo da rejeição. O que quer que ‘ego’ signifique, o seu já entrou em campo. Ou talvez ‘vaidade’ seja uma palavra melhor. Porque você tem consciência de que boa parte da sua escrita se tornou essencialmente exibicionista, procurando levar as pessoas a pensarem que você é bom. Isso é incompreensível. Arriscou tudo, escrevendo — a sua vaidade está em jogo. Então, você descobre algo complicado sobre a escrita de ficção; ela requer uma certa quantidade de vaidade, mas qualquer vaidade acima dessa quantidade é letal.

[…]

A certa altura, você descobre que 90% do que está a escrever é motivado e traduz uma enorme necessidade de agradar. Isso resulta em ficção de merda. E o trabalho de merda deve ir diretamente para o lixo, menos por causa de qualquer tipo de integridade artística do que simplesmente porque o trabalho de merda irá desvalorizá-lo a si. Neste ponto de evolução da sua diversão literária, o que sempre o motivou a escrever é agora o que o leva a deitar o que escreve para o lixo. Trata-se de um paradoxo e de uma espécie de tiro no escuro, e pode mantê-lo paralisado dentro de si mesmo por meses ou até anos, durante os quais você chora e ronca, lamenta a sua má sorte e questiona-se amargamente sobre para onde foi toda a diversão da coisa.

O mais inteligente a dizer, acho, é que a melhor forma de sair dessa encruzilhada é regressar à sua motivação original: a diversão. E, se você conseguir encontrar o caminho de regresso à diversão, descobrirá que esse horrível período de tiros no escuro narcísicos acabou por ser bom para si. Porque, entretanto, a diversão a que agora regressa foi transfigurada pelo extremo desconforto da vaidade e do medo, um desconforto que você está tão ansioso por evitar que a diversão redescoberta se torna ainda mais plena e generosa. Tem algo a ver com o Trabalho como Divertimento. Ou com a descoberta de que a diversão disciplinada é mais do que diversão impulsiva ou hedonista. Ou com a constatação de que nem todos os paradoxos têm de ser paralisantes. Sob este novo signo da diversão, escrever ficção torna-se um meio de aprofundamento interno e de iluminação das coisas que, precisamente, você não quer ver ou deixar que os outros vejam, e (paradoxalmente) essas acabam por ser exatamente as coisas que todos os escritores e leitores em todos os lugares compartilham, reagem, sentem. A ficção torna-se uma maneira estranha de olhar para si mesmo e dizer a verdade, em vez de ser uma maneira de fugir de si mesmo ou de se apresentar como você acha ser o seu melhor. O processo é complicado, confuso e assustador, além de requerer um trabalho árduo, mas acaba por ser a melhor diversão do mundo. […] O fato de agora você conseguir divertir-se quando escreve, enfrentando as partes menos divertidas de si mesmo que antes quis evitar ou disfarçar através da escrita, é outro paradoxo, mas não é de todo uma armadilha. É, sim, um presente, uma espécie de milagre, e, comparado com ele, as recompensas do afeto de estranhos não passam de poeira, farrapos.” David Foster Wallace, “The nature of fun”, Fiction Writer Magazine, Setembro 1998

Dor

“Quem sabe da dor, sabe de tudo.” Dante Aleghieri

Escritores

“Como trabalham eles? São perenes, lá em cima, e muito alegres. Põem-se desta ou daquela maneira, em plena luz, ou na sombra, ao calor, nos cafés, no seu leito, sentados, deitados, duas horas de vez em quando, ou vinte horas seguidas. Após o que, pronto! Têm um ar tão resoluto que se tem vontade de experimentar. Mas isto não é um método, nem uma receita. É qualquer coisa que eles descobriram com o tempo, que os deixa estupefactos e os encanta: têm um corpo, e escreveram, também, com o seu corpo. Maravilha.

Pode-se interrogá-los também sobre as suas vidas de homens ordinários. Orgulham-se muito, além disso, de terem uma. Gostam de falar das suas viagens, explicar que tomam o avião, o comboio, que vão ao cinema, ou lhe fogem, que são bons caminhantes, ou cozinheiros... Gostam de fazer crer que são como toda a gente. É falso. Os escritores são pessoas absolutamente extraordinárias: são inúteis. Um escritor não serve para nada, não é bom para nada. Ele sabe-o, sente-o. Deveria morrer de orgulho, por isso mesmo. Mas acontece muitas vezes, pelo contrário, que sofre por nada empreender à maneira dos outros, em equipa, a horas fixas, por hábito. O escritor é livre. É a sua liberdade que o assusta. A solidão. Pode-se escolher ser escritor, não se escolhe estar só. É preciso fazer-lhe companhia por breves momentos, se ele o permitir, falando justamente daquilo que não lhe diz respeito: a política, a cozinha. E não a literatura. Não se deve falar de literatura aos escritores, nem em chinês aos chineses. Corre-se o perigo de não se ser compreendido.

Mas se um escritor consente em confiar-se com toda a franqueza, deve-se interrogá-lo sobre ele próprio. Não que se conheça. Pelo contrário, não se vê melhor do que nós o vemos, mas tem a ciência dos caçadores: onde meter-se, onde postar-se, para espreitar as aparições, um movimento, o mínimo estalido interior. Sabe que é habitado. Que toda a gente o é.

Os escritores são também pessoas que não temem absolutamente nada evocar as suas fraquezas. Um grande patrão, um chefe, um empregado, pensam: se eu confesso que não tenho memória, que bebo ou que sou imoral, estarei perdido, serei eliminado. Um escritor sabe que no que diz respeito ao essencial — a sua obra —, nem os seus pecados singulares, nem a sua confissão, o podem prejudicar. Um livro não se faz com o pleno, mas com o vazio, as faltas, a infelicidade. É muitas vezes a sua coqueteria, à escritor, de se mostrar mais cansado, mais abatido do realmente está. Vem visitar o autor da obra-prima? Repare bem! Aproveite o seu tempo! Considere! Espanta-se? Mais se espantará ainda amanhã, depois de amanhã, quando tiver lido... 

Voltemos a trazê-lo para o presente: o seu passado. ‘Que faz aquela personagem... E que quis dizer em...’ As perguntas grosseiras. Aquelas que fazem recuar — ou responder.

E de súbito ei-lo, ele vem, o homem que modela o ar do tempo, o trabalhador, o solitário: ‘Eu pretendi... seria necessário... isso passou-se assim...’

Fala como se nós fôssemos feitos para o compreender, como se não houvesse nada de mais evidente, de mais visível, do que aquilo que nos mostra. E talvez seja verdade, com efeito. Os espaços, os rostos, o amor, a vida, o tempo, todos esses magníficos aprestos da existência, constituem o seu material. Acha que é também o nosso.”

Madeleine Chapsal, Os Escritores e a Literatura, Publicações Dom Quixote

Estilo

“O estilo é uma questão muito simples, tem tudo a ver com o ritmo. A partir do momento em que se apanha o ritmo, deixa de ser possível usar as palavras erradas... É um tema muito profundo, este, o de saber o que é o ritmo, e vai mais fundo do que as palavras. Uma paisagem, uma emoção, cria esta onda na mente, muito antes de as palavras se ajustarem; e, ao escrever... temos de resgatá-la, e pôr tudo a funcionar (coisa que aparentemente nada tem que ver com as palavras) e então, à medida que se fragmentam e andam às voltas dentro da cabeça, formam-se palavras que encaixam.”

Virginia Woolf, carta a Vita Sackville-West, 08.09.1928

Ética

“Um artista não tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo.” Oscar Wilde

Filosofia

“Se hoje... agosto de 1943, eu tivesse de treinar um poeta, dir-lhe-ia:

1 ° Não escreva com palavras, escreva com objetos e com sentimentos (portanto: fuja de toda a linguagem crítica, de toda a linguagem intelectual e até da descrição e da narrativa);

2 ° Não escreva uma única frase que tenha a mesma forma da frase precedente, a menos que exista um desejo firme de marcar um ritmo especial, mas diversifique a sua sintaxe como Shakespeare diversificou a sua sintaxe, colecione essas formas sintáticas, anote-as num repertório, num registo. As ideias surgem por si mesmas quando o molde está pronto para as receber. Este é o segredo para nunca se sentir entediado;

3 ° E o mais importante: uma obra não vale pelo que contém, mas pelo que a cerca. As palavras ‘Bom dia, Boa noite!’ devem ser impregnadas com uma filosofia da natureza, da sociedade, da astronomia, da metafísica, etc. É este o segredo das grandes obras.”

Max Jacob, Conseils à un jeune poète, 1972

Gatos

“Se deseja concentrar-se profundamente nalgum problema, especialmente em algo que escreveu ou esboçou, deve adquirir um gato. Sozinho com o gato na sala onde trabalha... o gato invariavelmente saltará para cima da sua secretária e instalar-se-á sob a lâmpada do candeeiro. A luz de uma lâmpada… dá ao gato grande satisfação. O gato irá acalmar-se e ficará sereno, com uma serenidade que ultrapassa todo o entendimento. E a tranquilidade do gato irá gradualmente contagiá-lo a si, sentado à sua secretária, de forma a que todas as qualidades excitáveis que impediram a sua concentração se recomponham e devolvam à sua mente o autocontrolo perdido. Não precisa de vigiar o gato o tempo todo. A presença dele é por si só suficiente. O efeito de um gato na sua concentração é notável e muito misterioso.” Muriel Sparks

Genuinidade

“Encontre um assunto com o qual se preocupe e com o qual sinta que os outros se deveriam importar. Esse interesse genuíno, e não os seus jogos com a linguagem, é que será o elemento mais atraente e sedutor do seu estilo.” Kurt Vonnegut

Imperativo

“Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até ao ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa da sua madrugada: preciso de escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples ‘Preciso’, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade; a sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso. Então aproxime-se da natureza. Procure, como o primeiro homem, dizer o que vê e vivencia e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite a princípio aquelas formas que são muito usuais e muito comuns: são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força grande e amadurecida para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes. Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que o seu próprio quotidiano lhe oferece; descreva as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza — descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos da sua memória. Caso o seu quotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar as suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse numa prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse até aos seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte a sua atenção para ela. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; a sua personalidade ganhará firmeza, a sua solidão ampliar-se-á e tornar-se-á uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros. E se, desse ato de se voltar para dentro de si mesmo, desse aprofundamento no seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles o seu precioso património natural, um pedaço e uma voz da sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra o seu valor, não há nenhum outro critério. Por isso, prezado senhor, eu não saberia dar-lhe nenhum conselho senão este: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde vem a sua vida; nessa fonte encontrará a resposta para a questão de saber se precisa de criar. Aceite-a como ela for, sem a interpretar. Talvez ela revele que o senhor é chamado a ser um artista.”

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta (tradução livre), 1929

Impossibilidade

“Penso que a coisa mais importante, ao iniciar um romance, é sentir que ele existe, mesmo que não possa ser escrito, na margem distante de um golfo, onde as palavras não conseguem chegar: um estado que as palavras dificilmente conseguem traduzir, que só pode ser atravessado numa angústia que nos deixa sem fôlego. Quando me sento para escrever um artigo, sei que por certo poderei dispor de uma torrente de palavras a que, no espaço de uma ou duas horas, poderei deitar a mão a fim de dar corpo à ideia. Mas um romance, para ser bom, antes de ser escrito deveria começar por parecer impossível de escrever; tanto assim é que durante nove meses se vive em desespero, e apenas quando se esqueceu o que se queria dizer é que o livro parece aceitável.”

Virginia Woolf, carta a Vita Sackville-West, 08.09.1928

Loiça

“O melhor momento para planear um livro é enquanto se lava a loiça.” Agatha Christie

História

“Se tens algo a dizer ou uma mensagem a comunicar, escreve uma carta. Um romance é para contar uma história.” Jorge Luis Borges

Horários

“Trabalho de manhã e, no início do dia, escrevo sempre à mão. Essas são as horas mais criativas. Nunca trabalho mais de duas horas desse modo. Imediatamente a seguir, começo a digitar o que escrevi, modificando um pouco o texto — o que representa, digamos, uma primeira revisão. Mas deixo sempre algumas linhas por digitar, para que, no dia seguinte, dê início ao meu dia de trabalho digitando o final do texto manuscrito no dia anterior. Isso ajuda a criar um certo dinamismo, a pôr a máquina novamente a trabalhar — uma espécie de ginástica de aquecimento, ou quase. O mais difícil é sempre começar. De manhã, é o retomar do contato, tão angustiante. Mas, se tivermos gestos mecânicos a fazer, o trabalho já está iniciado. A máquina começa a funcionar. Tenho uma disciplina de trabalho rigorosa: todas as manhãs e até as duas da tarde, estou no meu escritório.”

Mario Vargas Llosa, Sur la vie et la politique, Belfond, 1989, citado em “40 conseils aux futurs écrivains”, Anne Ressat e Hélène Paturel, L’Express, 01.05.1998

Maratona

“Escrever é como correr uma maratona. É preciso ser metódico. Deixas de o fazer um só dia e perdes logo o ritmo; perde-se muito tempo depois, tentando restabelecê-lo.” Paul Auster

Mentira

“Uma das causas da natureza curiosamente vulgar de quase toda a literatura atual é sem dúvida a decadência da Mentira, considerada como arte, ciência e prazer social. […] No nosso tempo os factos usurparam o domínio da Fantasia e invadiram o reino da Ficção. O seu contato glacial afeta tudo. Estão a tornar vulgar a própria Humanidade.” Oscar Wilde, The Decay of Lying; An Observation, 1891

Noite

“Nunca é preciso mudar nada num texto que se tenha levantado a meio da noite para escrever.” Saul Bellow

Orgasmo

“Escrever é como fazer amor. Não te preocupes com o orgasmo, preocupa-te com o processo.” Isabel Allende

Ouvido

“Não é a voz que dirige a história, mas sim o ouvido.” Italo Calvino

Palavras

“As palavras existem para dar às nossas emoções a oportunidade de preencher esse fosso que nos separa do nosso público. Ainda assim, devemos evitar as armadilhas que elas nos colocam e considerá-las não como servos cegos, mas como eternos rebeldes. [...] Escolher uma palavra é sobretudo procurar a mais justa, a que corresponda melhor ao que se quer expressar, mas é também, quando várias competem pelo mesmo papel, dar prioridade às mais simples. E essa é talvez uma das maiores dificuldades desta profissão. Há muito tempo que percebi que o verdadeiro amor pelas palavras é aquele que segue o caminho mais simples. Pesquisas demasiado rebuscadas, a vontade de se ser original, só servem para matar o ritmo e a vida.”

Bernard Clavel, Qui êtes-vous?, J’ai Lu, 1985, citado em “40 conseils aux futurs écrivains”, Anne Ressat e Hélène Paturel, L’Express, 01.05.1998

Pausa

“Sim, escrever pode ser complicado, cansativo, solitário, alienante, chato, entorpecente, vagamente emocionante; parece ter sido feito para ser extenuante e desmoralizador. E, ocasionalmente, pode produzir recompensas. Mas nunca é tão difícil quanto, digamos, pilotar um L-1011 para O’Hare durante um nevão noturno em janeiro, ou fazer uma cirurgia ao cérebro durante dez horas em pé, sem paragens. Se você é escritor, pode parar em qualquer lugar, a qualquer hora, e ninguém irá importar-se ou dar conta disso. Além do mais, os resultados podem ser bem melhores se o fizer.

A mim, os benefícios de fazer uma pausa entre grandes projetos de escrita — isto é, romances — parecem-me manifestos e múltiplos. Por um lado, colocamos a vida vivida em primeiro lugar. V.S. Pritchett escreveu uma vez que um escritor é uma pessoa que observa a vida a partir de uma fronteira. Afinal, a arte (até a escrita) está sempre subordinada à vida, sempre a par dela. E a vida — esse multifuncional, multidimensional e tempestuoso comboio de pensamentos e sensações que você vivencia longe da sua secretária, quando caminha pela 56th Street ou se dirige para Memphis — pode ser bastante estimulante (se, simplesmente, o suportar), bem como útil para pôr em movimento a ‘roda da cerebralização inconsciente’ que Henry James achava que contribuía para o escritor ser capaz de, de facto, conjugar felicidade e fardo.

O tempo desperdiçado também pode ser uma boa recompensa pelo trabalho árduo que concluiu. Às vezes, é a única recompensa que receberá.”

Richard Ford, The New York Times, 08.11.1999

Personagens

“A tarefa [de construir personagens] resume-se a duas coisas: prestar atenção ao modo como se comportam as pessoas de carne e osso à sua volta e, a seguir, contar a verdade acerca daquilo que observa. Pode reparar que o seu vizinho do lado mete o dedo no nariz quando pensa que ninguém está a olhar para ele. É um belo pormenor, mas reparar nele não lhe serve de nada enquanto escritor a não ser que queira integrar o facto algures numa história.

As personagens de ficção provêm diretamente da realidade? Decerto que não, pelo menos individualmente — é melhor que não, a não ser que queira ser processado ou apanhar um tiro uma destas manhãs, a caminho da sua caixa de correio. Em muitos casos, como nos roman à clef do tipo de O Vale das Bonecas, as personagens são em grande parte extraídas da realidade, mas, depois de os leitores queimaram os miolos no inevitável jogo de adivinhar quem é quem, essas histórias tendem a ser insatisfatórias, sobrecarregadas como estão de celebridades vazias às turras umas com as outras e que o leitor depressa esquece. […]

Para mim, o que acontece as personagens à medida que a história avança depende apenas do que vou descobrindo sobre elas — por outras palavras, do modo como se vão desenvolvendo. Às vezes desenvolvem-se pouco. Se se desenvolvem muito, começam a influenciar o curso da história em vez do inverso. Começo quase sempre por algo situacional. Não estou a dizer que deva ser assim, mas apenas que sempre trabalhei desta maneira. No entanto, se uma história também termina assim, considero-a uma espécie de fracasso por muito interessante que possa parecer, a mim ou aos outros. Acho que as melhores histórias acabam sempre por ser mais sobre as pessoas do que sobre o acontecimento. Contudo, quando se ultrapassa o conto curto (duas a quatro mil palavras, digamos) não acredito muito no chamado estudo de personagens; acho que deve ser sempre a história a mandar. Se quiser um estudo de personagens compre uma biografia ou adquira uma assinatura para a temporada de teatro experimental da sua universidade local e terá todas as personagens que conseguir suportar.

Também é importante recordar que, na vida real, ninguém é o ‘mau’ ou ‘o melhor amigo’ ou ‘a prostituta com coração de ouro’; na vida real, cada um de nós vê-se a si próprio como a personagem principal, o protagonista, o figurão; a câmara está virada para nós, amigo. Se conseguir transpor essa atitude para a sua ficção, talvez descubra que é mais difícil criar personagens brilhantes mas, em compensação, tenderá menos a criar o tipo de tolos unidimensionais que povoam tanta ficção popular.

Annie Wilkes, enfermeira que mantém Paul Sheldon prisioneiro em Misery, pode parecer uma psicopata aos nossos olhos, mas é importante recordar que ela se vê a si própria como uma pessoa perfeitamente saudável e racional — uma heroína, de facto, uma mulher cercada que tenta sobreviver num mundo hostil cheio de fedelhos mimados. Vemo-la a passar por oscilações de humor perigosas, mas tentei nunca dizer ‘Annie estava deprimida e com pensamentos suicidas nesse dia’ ou ‘Annie parecia particularmente feliz nesse dia’. Se tenho de lhe dizer estas coisas, perco. Por outro lado, se consigo mostrar-lhe uma mulher calada, de cabelo sujo, a engolir compulsivamente bolos e doces, e se você conclui que Annie está na fase do ciclo maníaco-depressivo, ganho. E se for capaz, ainda que por pouco tempo, de lhe dar uma perspetiva Wilkes do mundo— se for capaz de o fazer compreender a loucura dela —, talvez consiga que simpatize, ou até que se identifique, com ela. O resultado? Annie torna-se mais assustadora do que nunca porque se aproxima do real. Por outro lado, se a transformar numa bruxa tagarela, Annie não passará de um demónio de caixinha de surpresas. Nesse caso, perco a grande oportunidade e o leitor também. Quem quereria visitar uma megera já estão gasta? Essa versão de Annie já era velha quando O Feiticeiro de Oz se estreou.

Seria justo perguntar, suponho, se Paul Sheldon em Misery sou eu. Uma parte dele é certamente... mas, se o leitor continuar a escrever ficção, penso que irá descobrir que cada personagem que cria é, em parte, o próprio leitor. Quando se interroga sobre o que irá fazer uma determinada personagem em determinadas circunstâncias, está a decidir baseado no que faria (ou não faria, no caso do mau). A acrescer a estas versões de si próprio estão os traços de caráter, tanto simpáticos como antipáticos, que observa nas outras pessoas (um indivíduo que mete o dedo no nariz quando pensa que ninguém está a olhar para ele, por exemplo). Existe ainda um terceiro elemento maravilhoso: a imaginação pura, destituída de sentido prático. Foi este aspeto que me permitiu ser uma enfermeira psicótica durante algum tempo, quando estava a escrever Misery. E ser Annie não foi nada difícil, em linhas gerais. De facto, até foi divertido. Penso que ser Paul foi pior. Ele era mentalmente saudável, tal como eu, pelo que, no caso dele, não passei quatro dias na Disneylândia.

[…]

A minha tarefa (e a sua, se decidir que esta é uma maneira viável de contar histórias) é garantir que estes indivíduos inventados se comportem de uma maneira que ajude a história e pareça racional aos nossos olhos, dado o que sabemos sobre eles (e também o que sabemos sobre a vida real, evidentemente).

[…]

Se fizer o seu trabalho, as personagens ganham vida e começam a fazer coisas por si. Sei que isto pode parecer um pouco fantasmagórico se ainda não passou pela situação mas, quando acontece, é terrivelmente divertido. Além de lhe resolver uma série de problemas, acredite.”

Stephen King, Escrever, Temas e Debates, 2001

Ponto de vista

“Uma ficção narrativa tem poucas hipóteses de nos fascinar se não soubermos quem está a falar e sobre quê. Pode-se dizer que a escolha do ponto (ou pontos de vista) a partir do qual a história é contada é a decisão mais importante que o romancista tem de tomar, porque ela afeta a maneira como os leitores irão reagir, no plano emocional e moral, às personagens e às suas ações. Por exemplo, a história de um adultério, seja ela qual for, afeta-nos de maneira diferente, se for vista pela pessoa adúltera, pelo cônjuge traído, ou pelo amante ou pela amante, ou por uma terceira pessoa que a observa sem preconceitos. [...] Um autor preguiçoso ou inexperiente é frequentemente traído pela falta de consistência no tratamento do ponto de vista. [...] Evidentemente, não existe nem lei nem regra que proíba um romancista de mudar de ponto de vista sempre que desejar; mas, se essa mudança ocorrer sem um plano ou um princípio estético, a participação dos leitores no texto, a ‘produção’ do seu sentido por eles, ficará comprometida.”

David Lodge, The Art of Fiction, 1992, citado em “40 conseils aux futurs écrivains”, Anne Ressat e Hélène Paturel, L’Express, 01.05.1998

Porquê

“Existem quatro grandes motivos para alguém escrever, ou pelo menos para escrever prosa. Estão presentes em diferentes graus em cada escritor e as suas proporções podem variar de acordo com a atmosfera em que cada escritor vive num determinado momento. São eles:

(i) Puro egoísmo. Desejo de parecer inteligente, ser citado, ser lembrado após a morte, vingar-se dos adultos que o desprezaram na infância, etc., etc. É uma farsa fingir que este não é um dos motivos, e bem forte. Os escritores compartilham esta característica com cientistas, artistas, políticos, advogados, soldados, empresários de sucesso — em suma, com toda a cúpula da humanidade. A grande massa de seres humanos não é particularmente egoísta. Depois dos trinta anos, perdem quase por completo a noção de serem indivíduos — e vivem sobretudo para os outros, ou são simplesmente sufocados pelo trabalho. Mas há também uma minoria de pessoas talentosas e voluntariosas que estão determinadas a viver as suas próprias vidas até ao fim, e os escritores pertencem a esta classe. Devo dizer que os escritores sérios são genericamente mais vaidosos e egocêntricos do que os jornalistas, ainda que menos interessados ​​em dinheiro.

(ii) Motivação estética. Perceção da beleza no mundo exterior, ou, noutro sentido, nas palavras e no seu correto alinhamento. Prazer no impacto de um som noutro, na densidade da boa prosa ou no ritmo de uma boa história. Desejo de compartilhar uma experiência que se sente que é valiosa e que não deve ser desperdiçada. A motivação estética é muito fraca em muitos escritores, mas até mesmo o escritor panfletário ou didático tem as suas palavras e frases preferidas ou que o atraem por razões não utilitárias; ou então pode interessar-se muito pela tipografia, pela largura das margens, etc. Acima de um guia ferroviário, nenhum livro está livre de considerações estéticas.

(iii) Impulso histórico. Desejo de ver as coisas como elas são, de descobrir fatos verdadeiros e de os guardar para uso da posteridade.

(iv) Propósito político. Tomando a palavra ‘político’ no sentido mais amplo possível. Desejo de encaminhar o mundo numa determinada direção, de alterar a ideia que outras pessoas têm sobre o tipo de sociedade a alcançar. Mais uma vez, nenhum livro está genuinamente a salvo dos preconceitos políticos. A opinião de que a arte não deveria ter nada a ver com política é em si mesma uma atitude política.

[…] Relendo as últimas duas páginas, constato que dei a entender que os meus motivos para escrever tinham todos um sentido público. Não quero de todo deixar essa impressão final. Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos, e, no fundo dos seus motivos, reside um mistério. Escrever um livro é uma luta horrível e exaustiva, como um longo período de alguma doença dolorosa. Nunca se empreenderia tal coisa se não se fosse arrastado por algum demónio a quem não se consegue resistir nem se consegue entender. Todos sabemos que o demónio é tão só o mesmo instinto que leva um bebé a chorar por atenção. E, no entanto, é inegável que ninguém consegue escrever algo legível, a menos que se esforce constantemente por apagar a sua própria personalidade. A boa prosa é como uma vidraça. Não consigo clarificar totalmente quais são as minhas principais motivações, mas sei quais delas merecem ser seguidas. E, olhando para trás, para o meu trabalho, constato precisamente que todas as vezes que não segui um propósito político escrevi livros sem vida e fui traído por passagens insípidas, frases sem sentido, adjetivos decorativos e facécias várias.”

Graham Greene

Público

“Escreva para agradar apenas a uma só pessoa. Se abrir a janela e quiser fazer amor com o mundo, por assim dizer, a sua história acabará por apanhar uma pneumonia.” Kurt Vonnegut

Regras

Para uma grande história:

• Ausência de longas verborreias de natureza politico-social-económica;

• Objetividade total;

• Descrições fiéis de pessoas e objetos;

• Extrema brevidade;

• Audácia e originalidade: fugir do estereótipo;

• Compaixão.

Anton Chécov

Roubo

“Os poetas imaturos imitam; os poetas maduros roubam.” T. S. Eliot

Sobrevivência

“Primeiro, tem de haver talento, muito talento. Talento como o de Kipling. Depois, tem de haver disciplina. A disciplina de Flaubert. Depois, tem de se saber o que pode ser e ter uma consciência absoluta tão imutável quanto o medidor padrão em Paris, para evitar falsificações. Depois, o escritor tem de ser inteligente e desinteressado e, acima de tudo, tem de sobreviver. Tente reunir todas estas caraterísticas numa pessoa e faça-a experimentar todas as circunstâncias que pressionam um escritor. O mais difícil, porque o tempo é tão curto, é que ela sobreviva e faça o seu trabalho.” Ernest Hemingway

Sonho

“Vivemos como sonhamos, sozinhos.” Joseph Conrad

Sono

“Termine cada dia antes de começar o próximo e interponha uma sólida parede de sono entre os dois. Só o conseguirá com temperança.” Ralph Waldo Emerson

Superação

“Noventa e nove por cento de talento. . . Noventa e nove por cento de disciplina. . . Noventa e nove por cento de trabalho. Nunca deve estar satisfeito com o que faz. Nunca é tão bom quanto podia ser. Sonhe sempre e aponte para mais alto do que você sabe que consegue. Não se preocupe apenas em ser melhor do que os seus contemporâneos ou os seus predecessores. Tente superar-se. Um artista é uma criatura guiada por demónios. Não sabe por que o escolhem e geralmente está demasiado ocupado para se perguntar porquê. É completamente amoral porque irá apropriar-se, pedir emprestado, implorar ou roubar todos e mais algum para conseguir fazer o seu trabalho.” William Faulkner

Suspensão

“Pare enquanto estiver a ir bem e não se preocupe com isso até voltar a escrever no dia seguinte. Assim, o seu subconsciente continuará a funcionar o tempo todo. Mas, se pensar conscientemente ou se preocupar com isso, irá asfixiá-lo e o seu cérebro vai estar cansado antes mesmo de retomar a escrita.” Ernest Hemingway

Tipo

“Comece com um indivíduo e descobrirá que criou um tipo; comece com um tipo e descobrirá que não criou: nada.” F. Scott Fitzgerald

Mandamentos

• Cadernos secretos cheios de rabiscos e furiosas páginas datilografadas, para seu bel prazer;

• Seja submisso a tudo, aberto, à escuta:

• Tente nunca ficar bêbado fora da sua própria casa:

• Apaixone-se pela sua vida;

• O que quer que sinta, encontrará a sua própria forma;

• Seja louco, estupidamente casto na sua mente;

• Expire tão fundo quanto quiser;

• Escreva o que quiser, ilimitadamente, das profundezas da sua mente;

• As visões indizíveis do indivíduo;

• Não perca tempo com poesia, escreva exatamente o que é;

• Tiques visionários palpitando no peito;

• Em estática concentração, sonhando com o objeto à sua frente;

• Elimine as inibições literárias, gramaticais e sintáticas;

• Como Proust, seja um velho feiticeiro do tempo;

• Conte a verdadeira história do mundo num monólogo interior;

• A pedra preciosa do foco do interesse é o olho dentro do olho;

• Escreva recordando-se, espantado, de si mesmo;

• Trabalhe a partir do seu néctar interno, nadando no mar da linguagem;

• Aceite a perda definitiva;

• Acredite no contorno sagrado da vida;

• Lute para esboçar o fluxo que já existe intacto na sua mente;

• Quando parar, não pense nas palavras, mas, sim, em ver melhor a imagem;

• Registe cada dia, sem perder de vista a data que a sua manhã anuncia;

• Não tema nem se envergonhe da dignidade da sua experiência, linguagem e conhecimento;

• Escreva para que o mundo leia e veja os retratos exatos que dele faz;

• O livro é o filme em palavras, a forma visual americana;

• Louve o Caráter na Sombria Solidão desumana;

• Componha de forma selvagem, indisciplinado, puro, vindo das profundezas, quanto mais louco melhor;

• Você é um Génio a tempo inteiro.

Jack Kerouac

• Trabalhe numa só coisa de cada vez;

• Não comece novos livros, não acrescente novo material a ‘Black Spring’;

• Não fique nervoso. Trabalhe calma, alegre e imprudentemente no que tiver à mão;

• Trabalhe de acordo com o Plano e não de acordo com o seu estado de espírito. Pare na hora marcada!

• Quando não pode criar, pode sempre trabalhar;

• Cimente um pouco a cada dia, em vez de adicionar novos fertilizantes;

• Mantenha-se humano! Veja pessoas, vá a lugares, beba se lhe apetecer.;

• Não seja burro de carga! Trabalhe apenas com prazer;

• Descarte o Plano quando lhe apetecer — mas regresse a ele no dia seguinte. Aglutine. Peneire. Exclua;

• Esqueça os livros que gostaria de escrever. Pense apenas no livro que vai escrever;

• Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.

Henry Miller

• Abandone a ideia de que irá terminar um dia. Esqueça a meta das 400 páginas e escreva apenas uma por dia, isso ajuda. Assim, quando terminar, será sempre surpreendido pelo resultado;

• Escreva da forma mais livre e rápida possível e atire tudo para o papel. Não corrija ou reescreva até estar tudo lá. Reescrever é um recurso habitualmente usado como desculpa para não prosseguir. Também interfere na corrente e no ritmo de escrita, que só podem surgir de uma espécie de associação inconsciente com o material;

• Esqueça o seu público. Em primeiro lugar, essa audiência anónima e sem rosto vai aterrorizá-lo e, em segundo lugar, ao contrário do teatro, aqui não existe plateia. Na escrita, o público é composto por um só leitor. Descobri que, às vezes, ajuda escolher uma pessoa — uma pessoa de verdade, que você conheça, ou uma pessoa imaginária — e escrever para ela.

• Se uma cena ou um capítulo não estão a correr bem, mas quer mantê-los — passe por cima e avance. Quando terminar, regresse e então talvez conclua que não estavam a correr bem porque eram dispensáveis;

• Cuidado com cenas de que gosta muito, mais do que de tudo o resto. Na maior parte dos casos, descobrimos que são cartas fora do baralho;

• Se está a escrever um diálogo, diga-o em voz alta enquanto escreve. Só assim ele soará como discurso.

John Steinbeck, numa carta de 1962, dirigida ao ator e escritor Robert Walsten

• Leia muitos livros na infância. Passe mais tempo com eles do que com qualquer outra coisa;

• Em adulto, tente ler o seu próprio trabalho como um estranho o leria, ou melhor, ainda, como um inimigo o leria;

• Não romantize a sua ‘vocação’. Ou você consegue escrever boas frases ou não consegue. Não existe um ‘estilo de vida de escritor’. A única coisa que importa é o que deixa escrito na página;

• Evite as suas fraquezas. Mas faça-o sem dizer a si mesmo que as coisas que não consegue fazer não merecem ser feitas. Não confunda insegurança com menosprezo;

• Reserve um espaço de tempo considerável entre escrever algo e editá-lo;

• Evite claques, grupinhos e panelinhas. A presença de uma multidão não torna a sua escrita melhor do que ela é;

• Trabalhe num computador desconectado da internet;

• Proteja o tempo e o espaço de escrita. Mantenha toda a gente afastada deles, até mesmo as pessoas mais importantes para si;

• Não confunda elogios com conquistas;

• Diga a verdade através de qualquer véu que lhe venha à mão – mas diga-a. Resigne-se à tristeza interminável de nunca estar satisfeito.

Zadie Smith, The Guardian, 2010

Verdade

“A ficção é uma mentira, e a melhor ficção é a verdade dentro da mentira.” Stephen King, Escrever, Temas e Debates, 2001

Vestuário

“Para escrever, visto um macacão de mecânico, porque é uma roupa confortável; o macacão é a peça mais prática alguma vez inventada para trabalhar. Enfiamo-lo de manhã, um simples fecho éclair e hop...”

Gabriel García Márquez, Lire, novembro 1979

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