O Nosso Século é Fascista | Neutrais, nós? Não!


Nos finais de 1941, para Salazar, era certo que o III Reich sairia vencedor do conflito mundial iniciado em 1939. Portugal tinha de se preparar, com rapidez, para alinhar com esse pós-guerra. Aos olhos do ditador português, jurista e catedrático universitário, o sonho hitleriano de uma Confederação Europeia podia resumir-se num novo conceito de «organização social e política». Aquele que a potência vencedora, e os seus aliados, expurgadas as nefastas influências dos judeus, do comunismo e da América, imporiam a todos os Estados europeus: uma, muito desejada, «Nova Ordem».

Tome-se este ponto de partida para uma audaz viagem de re-análise das políticas externas e do quadro geral das ditaduras portuguesa e espanhola durante o período mais intenso da chamada «época do fascismo» (1918-1945). Tem por título «“O Nosso Século É Fascista!”: O Mundo Visto por Salazar e Franco (1936-1945)» e saiu pela Campo das Letras. É a edição comercial da tese de doutoramento desenvolvida pelo historiador Manuel Loff durante dez anos e discutida, em 2004, no Instituto Universitário Europeu, em Florença. De leitura imprescindível para quem entenda a urgência de re-arrumar o retrato corrente do Portugal salazarista.

Loff propôs-se uma «interpretação complexa, e não apenas oportunista, do carácter adaptável, camaleónico até» da imagem histórica das duas ditaduras e das suas identidades nacionais. Como o historiador António Louçã o fez com a polémica questão do ouro nazi, o objectivo é romper com a abordagem historiográfica tradicional e com visões preconcebidas.

Em cerca de 900 páginas densas, mas acessíveis, repletas de provas documentais, sustenta-se uma tese central. Não, Salazar não dirigiu uma «autocracia benigna» cromaticamente suave. Não, a ditadura fascista portuguesa não foi estrutural e essencialmente «neutral» ou «atlântica». A partir de um binóculo chamado «Nova Ordem», revêem-se antes as «auto-definições» políticas e ideológicas de um «Portugal oficial, salazarista, mais europeísta» (logo, menos colonialista), comprometido com o regime franquista. Um Portugal que se imaginou na vanguarda de uma nova identidade internacional, de apoteose fascista e europeísmo nazi, e que, perante a realidade contrária, procurou, com sucesso, reescrever a sua memória histórica.

O Nosso Século é Fascista!, Manuel Loff, Campo das Letras, 954 págs.

SOL/ 20-06-2088 © Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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