Mihai Eminescu | Um Satanás belo


Em movimento contrário à esmagadora concentração editorial, nasce mais uma pequena editora, a Alfabeto, dirigida por Carlos Barbosa e Carla Barbosa (a par de outra: a Estrofes & Versos), com vinte títulos previstos para este ano e uma tiragem média de 1500 exemplares. Entre os livros de estreia este mês em livraria, destaque para o ensaio autobiográfico Confissão, de Lev Tolstói, e, sobretudo, para a tradução do romeno de O Génio Vazio, uma novela de Mihai Eminescu, considerado o poeta nacional da Roménia e até agora inédito em Portugal.

Mihai Eminescu nasceu em 1850 em Ipotesti, na Moldávia, e faleceu com 39 anos, em Bucareste. Tido como o maior expoente da poesia romântica romena, foi também um dos primeiros poetas modernos europeus, com enorme influência posterior sobre os seus conterrâneos. Imbuído na filosofia de Schopenhauer, Eminescu exprimiu o revivalismo nacional romeno de finais do século XIX, agregando a linguagem e o interesse de romenos, moldavos e romenos da Bucovina. O regime comunista aclamou-o como poeta nacional, epíteto que mantém até hoje. O pessimismo empolado da sua poesia manifesta-se na prosa, como em O Génio Vazio, novela escrita entre os 17 e os 18 anos e publicada, em edição póstuma e versão incompleta, em 1904.

Aqui, a atracção mórbida pela beleza etérea e «demoníaca», pelo amor amaldiçoado, pela «dor sublime» e pela Morte esconde outras simbologias: o paralelismo entre o amor à arte e o amor à Pátria. Ioan, o primeiro narrador, defende a subjectividade: «A vida não é mais do que um sonho.» O essencial da novela reproduz o manuscrito autobiográfico que lhe é legado pelo amigo, Toma Nour, um «Satanás belo», «orgulhoso da sua queda», «um génio vazio». Toma apaixona-se e é traído pela bela Poesis (irmã de Sofia, a apaixonada morta de Ioan), «menina abraçada de saudades e enigma». Refugia-se da dor na pobre aldeia natal e, nas planícies da Transilvânia, junta-se aos anti-unionistas romenos contra a «insolência húngara» (o ano é o de 1848). O drama divide-se entre a vingança de amor e a violenta defesa do «génio pálido e choroso» da nação romena. O enfatuamento romântico envelhece a narrativa, mas sobrevive o dom poético de Eminescu e a arqueologia de um sonho nacionalista romeno.

O Génio Vazio, Mihai Eminescu, Alfabeto, 167 págs.

SOL/ 21-01-2011 © Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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