John Banville | O sentimentalismo é a morte da arte


John Banville é famoso pela escrita ultra-trabalhada, sensual na opulência formal e na atenção maníaca ao mundo exterior. Em entrevista, revela-se jocoso e provocador, solipsista (investiga quase cientificamente a fronteira entre razão e imaginação), mas sobretudo honesto na intenção vigorosa de levar ao limite as potencialidades da escrita de ficção.

Os romances do irlandês John Banville (n. 1945) estão cheios de monstros. Monstros protagonistas e narradores, que são totalmente humanos, quase ridículos na sua monstruosidade. Faltam-lhes muitas vezes sentimentos, mas nunca uma envolvência colorida, uma mente hipersensitiva e uma sinceridade perturbadora. Procedem habitualmente a uma investigação da trajetória da sua vida, confessam-se e desnudam-se sem contemplações. Foram egoístas  e brutais  com os outros humanos, mas agora, perante o leitor, estão, na sua narração, apenas a tentar chegar à verdade, e por isso merecem toda a nossa atenção. Esta mistura de coisas indignas narradas com  brilho literário e capacidade de autoanálise feroz consegue pinceladas de cómico e desabusado no que poderia ser trágico, ou meramente pomposo. É o que se dá também com a narração de Olly (Oliver Orme), protagonista do romance mais recente, A Guitarra Azul, pintor falhado, um pequeno cleptomaníaco, fascinado com o brilho e a nova vida que dá  (diz ele, para se justificar) a objetos insignificantes.

A primeira tentação é dizer-se que John Banville faz uma escrita poética, pictórica, trabalhada para ser avaliada em primeiro lugar como estilo, qualidade de escrita. Em 2005, no discurso de recepção do Man Booker por O Mar, ele chegou a dizer que finalmente tinham dado o prémio a uma obra de arte… Mas os seus livros não são estáticos, muito menos contemplativos. Apesar do brilho ofuscante das metáforas, das aliterações e do estilo principesco, Banville ergue de imediato a voz credível de um protagonista com um mundo específico de referências e obsessões e, sobretudo, sabe construir muitas e pequenas cenas, momentos atmosféricos e incidentes que têm um efeito cumulativo. Dá tempo e espaço ao leitor para respirar e, sobretudo, para ver. É um escritor das interrogações e hesitações internas, mas que, para as elucidar, confia mais na descrição de pormenores externos do que na psicologia das suas figuras. Escreve numa espécie de êxtase, espantado com as revelações poéticas da sua escrita ou com a sua própria eloquência imaginativa, mas ainda mais com o que da verdadeira Natureza lhes escapa; em cada frase estamos à espera de encontrar uma epifania, uma descoberta essencial. As palavras parecem pedras preciosas, cuidadosamente escolhidas para serem engastadas numa joia. Ter de o traduzir deve ser uma tragédia, pelo que se perde de som, de iridescência visual. E, no entanto, como o brilho da sua escrita não é apenas superficial, a profundidade sobrevive — é sempre melhor lê-lo traduzido do que não o ler. John Banville é um ficcionista que gosta de pensar que também é um poeta, um pintor, um músico, até um coreógrafo. É assim que torna estranhamente eloquente a mudez de tudo o que não é humano e nos mostra, imaginando-as, as coisas, as pessoas e o mundo tal como são.

O que pensa do facto de a maior parte das críticas e comentários ao seu último livro, A Guitarra Azul, defenderem que é um romance bem escrito, mas que está longe de ser o seu melhor livro? Para si, um novo romance é apenas mais um no conjunto da obra, tal como um novo filho integra de modo natural a família já constituída, ou tem ser o melhor de todos?

Antes de mais, eu nunca leio as críticas aos meus livros, o que me dá uma sensação de grande liberdade e leveza. Não escrevo para os críticos, nem para os académicos, escrevo para os leitores e tento escrever cada livro o melhor que consigo. Mas, como tudo na vida, por mais planos que faça, quando começo um livro nunca sei onde ele irá parar. Sou incapaz de avaliar os meus livros: são todos péssimos.

Não há nenhum de que goste mais?

Os Infinitos [2009, Asa] foi o que mais se aproximou do que eu queria que ele fosse. Mas eu não sei nada sobre os meus livros. Ainda por cima, com a idade que tenho, já me esqueci da maior parte deles…

Os Infinitos tem um ambiente próximo de Na Minha Morte…

Sim, talvez.

Inspirou-se no romance de Faulkner?

Nunca me inspiro em ninguém. Hoje em dia, só eu é que me sirvo de inspiração.

«Ah. O amor. Sim. O ingrediente secreto de que me esqueço sempre e deixo de fora.» [A Guitarra Azul] Todos o seus livros parecem dizer-nos que não colhemos nada de bom em sermos politicamente corretos, sobretudo se formos um artista. Para criar arte, não bastam as boas intenções e os bons sentimentos, pelo contrário. Concorda?

Absolutamente. A arte tem ser amoral, apolítica. Não deve querer trazer qualquer bem ao mundo. Há essa ilusão de que a arte nos faz pessoas melhores; não faz. A arte apenas pode fazer-nos sentir mais intensamente vivos, por um breve momento. Na sétima Elegia de Duíno, Rilke questiona o porquê de ser humano e de estar aqui, e diz: “Mas porque estar aqui é muito, e porque tudo / o que é daqui aparentemente precisa de nós, estas coisas efémeras, que / estranhamente nos dizem respeito. A nós, os mais efémeros.” [trad. Maria Teresa Dias Furtado] É uma descrição perfeita. Porque estamos aqui, no curto espaço de tempo em que aqui estamos, devemos registar tudo da forma mais vívida e intensa que consigamos, e a arte ajuda-nos a fazê-lo. Felizmente, esse é o seu único propósito.

Sem qualquer intenção de resolver o que quer que seja.

Sim, claro. Um artista não é um político, um sociólogo ou um psiquiatra. Um artista é só um artista, criando o que de mais belo consegue criar e colocando-o no mundo. Escreve-se um livro apenas porque ele não existia antes, é só.

De O Mar: “Vejo-os ali, aos meus pobres pais, brincando rancorosamente às casinhas na infância do mundo. A infelicidade deles foi uma das constantes dos meus primeiros anos, um zumbido agudo, incessante, no ponto limite da audição. Não os odiava. Talvez até os amasse. O problema é que eles estavam no meu caminho, ocultando-me o futuro. Com o tempo eu viria a conseguir ver através deles, os meus transparentes pais.”

Já não me lembrava dessa passagem. É bastante bonita! [rio]

Metaforicamente, temos de matar aquilo ou quem mais amamos, para nos tornar-nos artistas ou, tão-só, para nos tornarmos nós mesmos?

Não creio que o artista seja alguém especial. Ele é apenas alguém que se concentra e que observa o que está à sua volta de um modo mais intenso do que o comum das pessoas. Não somos deuses. Pensamos que somos, mas não somos. Toda a gente tem essa sensação de que é preciso limpar a paisagem… Eu tive muita sorte: os meus pais morreram quando eu tinha trinta anos. O Kingsley Amis disse que o maior presente que um pai pode dar a um filho é morrer novo. Quando os nossos pais morrem, sentimos a falta deles, mas também nos sentimos…

… libertos.

Hoje, olho para os meus filhos e penso que eles devem estar a dizer para si mesmos: “Quando é que este se vai embora?» [risos]

Ser-se artista é ser-se impiedoso, um canibal, um ladrão (como o Olly). Nós roubamos coisas, mas só para lhes dar uma nova vida, para as renovar. A arte diz-nos: “Olha para esta cadeira, esta pessoa, este objeto… Vê como eu vou olhar para isto.” É por isso que, quando eu era novo, quis ser pintor. O olhar humano é extraordinário. O olhar do artista é quase indecente.

Imagino que não porque queira despir a realidade, mas apenas porque quer vê-la…

… tal como ela é. É maravilhoso ver como as crianças, os meus netos (tenho dois), olham para as coisas pela primeira vez. Os adultos só não acham o mundo um assombro permanente porque já se habituaram a ele. Pelo contrário, um artista nunca se habitua a andar por aqui. Eu nunca me habituei a estar neste mundo; continuo a achá-lo um lugar espantoso. Amo este mundo, mas nunca senti que aqui pertencesse. Não é que me sinta um estranho, mas também não me sinto em casa. A certa altura, o narrador de O Livro da Confissão [1990, Quetzal] declara (e foi a única vez em que escrevi usando a minha própria voz) que nunca se acostumou a estar nesta terra e que a nossa presença aqui é um enorme erro cósmico. Questiona-se sobre as pessoas que cá deviam andar e sobre como elas estarão, do outro lado do universo. E conclui que elas já se devem ter extinguido há muito, por habitarem esse lugar, algures, que nos estava destinado a nós, selvagens humanos. Acho que é verdade. Nós somos demasiado selvagens para esta Terra tão gentil. Nós somos o vírus mais bem sucedido que alguma vez por aqui apareceu. E, um dia, talvez o planeta consiga curar-se.

Foi por causa desta sensação de não pertença que comecei a escrever muito cedo, ainda criança. Não para absorver o mundo, mas para o observar e para dar conta do porquê de eu estar aqui. Observar é muito fácil; o difícil é dar conta do que se observa.

Para o observar melhor, o artista precisa de se afastar ou de se aproximar mais do mundo?

Tem se aproximar mais, é claro.

Mas creio que disse algures que, para se tornar um artista, a criança tem de sofrer muitos traumas, tem de ser rejeitada, posta de parte, afastada do mundo das outras crianças, ferida.

[ri] Bem, sou como um romântico do século XIX com as feridas por sarar e que acredita que o artista é uma pessoa ferida. Mas, quanto mais velho fico, mais me pergunto: quem é que não está ferido? Estamos todos feridos. Temos muita sorte em podermos aproveitar as feridas para criar algo belo. No meu caso, sinto-me um privilegiado por ter passado a vida a trabalhar a linguagem, porque a frase é a maior, a mais sofisticada, invenção humana. Houve civilizações que não inventaram a roda (como os incas ou os astecas), mas às quais a frase garantiu, precisamente, que se tornassem civilizações.

A figura central dos seus romances, essa voz narrativa quase sempre usada na primeira pessoa do singular, é preferencialmente um homem maduro, se não já velho. Um pintor, escritor, cientista, que tem atrás de si um percurso de sucesso que lhe dá margem para se permitir um excesso de misantropia,  egocentrismo, desprezo pelos outros, cinismo em relação aos sentimentos convencionais. São figuras antipáticas por natureza, mas com uma grande capacidade de articulação, um grande domínio da frase. Para além disso, sabem de pintura, de ciência, parecem lidar bem com o francês e ao alemão, têm muitas referências de cultura clássica, sobretudo de mitologia grega. Acha que é por isso que suscitam tanta curiosidade nos leitores? Por serem homens intelectualmente superiores, mas moralmente bárbaros?

Acho que eles são apenas honestos. Não são sentimentais. Não inventam desculpas. Certa vez, um jornalista alemão perguntou-me, em relação a O Mar, como é que tinha sido capaz de não ser sentimentalista ao escrever um livro sobre um homem que acaba de perder a mulher. Nunca tinha pensado nisso. Respondi-lhe que o sentimentalismo é a morte da arte. Se olharmos para o mundo suficientemente de perto, com honestidade, é impossível sermos sentimentais.

Os seus protagonistas não dispensam o humor.

De todo, acho que são até muito engraçados.

Aliás, o cinismo deles tem um charme estranho.

Cinismo é apenas uma outra palavra para realidade. Alguém me acusou uma vez de escrever livros muito sombrios. Eu disse: “Olhe para o mundo!” Quando estava a encenar uma peça em Londres, Beckett foi questionado por um dos atores sobre o porquê da sua visão tão negra sobre o mundo. Ele respondeu: “Na parte de trás dos bancos do táxi que me trouxe hoje para o teatro, havia dois anúncios. Um pedia dinheiro para o treino de cães-guias de cegos; outro pedia dinheiro para as pesquisas de uma cura para o cancro. Em que mundo é que você vive?» Ele tinha toda a razão. Este mundo é terrível, mas, paradoxalmente, é extremamente belo. É isso que os meus narradores tentam comunicar: esta estranha e complexa mistura de requinte e de terror.

Qual é o papel do humor na sua obra, que é, afinal, tão séria?

Oiça, as pessoas não apanham nem metade das piadas que eu conto nos meus livros! [dou uma gargalhada, e Banville prossegue, com um sorriso faceto] Talvez com o tempo lá cheguem.

Um dos grandes problemas dos romancistas é que as pessoas pensam que basta ler uma vez um romance. Devemos ler cada romance pelo menos duas vezes! Da primeira vez, somos todos crianças curiosas à espera de ver o que acontece na página seguinte. No final, quando ficamos a conhecer a história toda, então devemos voltar à primeira página e reler o livro todo, agora, sim, com atenção ao modo como ele está escrito.

É o que se exige a quem recenseia livros, mas raramente é viável fazer-se uma releitura integral. Continua a escrever recensões? Porquê?

Sim, gosto muito de fazê-las. E leio os livros com toda a atenção. Se são bons, leio-os duas vezes. Escrever recensões é uma tarefa nobre, e necessária.

Por que é que não lhes chama críticas?ticas﷽﷽﷽﷽﷽ma crse e necessaz?

enç seia livros. s vezesvez.s! [risos] lhe diss superiore, mas moralmente béé que

Porque não sou um crítico, sou um recenseador de livros. Apresento aos leitores (quais quer que eles sejam, do Guardian ou da New York Review of Books) livros recentes que considero que vale a pena serem lidos. Trata-se de uma opinião pessoal, que tento que seja o mais honesta, clara e verdadeira possível. Se o livro for mau, não escrevo sobre ele. Reconheço que, às vezes, me engano. É precisamente isso que define um recenseador de livros.

Reconsiderou o que escreveu sobre Sábado, de Ian McEwan [“A day in the life”, New York Review of Books, 26/05/2005]? Acha que se enganou?

Não, de todo. Mas digo-lhe qual foi o meu erro: o enfoque do texto. O romance tinha sido publicado em Inglaterra há vários meses. Eu queria destacar a estupidez dos recenseadores que embandeiraram em arco com um romance escrito desleixadamente, com um argumento estúpido. Teria mandado o livro para trás, sem escrever sobre ele, se não me tivesse irritado tanto a aclamação entusiástica de um romance tão mau. Era sobre isso que eu queria escrever. Ganhei muitos inimigos entre os recenseadores. E eles vingaram-se quando eu publiquei o meu romance seguinte. Hoje, lamento ter sido tão cruel para com Ian McEwan. Devia ter enfatizado que não era tanto o livro que estava em causa, mas a forma como foi recebido.

Imagina o que ele deve ter sentido quando leu a recensão?

Bem, espero sinceramente que o tenham avisado e que ele não a tenha lido. Afinal, é para isso que servem os melhores amigos…

A delinquência e o furto são temas muito frequentes nas suas ficções, funcionam como uma espécie de moldura. O roubo talvez seja uma metáfora para o tipo de apropriação que os seus protagonistas fazem do mundo à volta, impondo-lhe a sua personalidade e os seus impulsos criativos psicopatas ou apenas autocentrados.

O furto é uma metáfora para o que o artista faz: apropria-se das coisas. Destaca-as do mundo, torna-as únicas e notória a sua presença, antes desapercebida. Vou tentar explicar como. O artista concentra-se intensamente no objeto. O objeto não está à espera dessa atenção; antes ele estava apenas ali, discreto, escondido. O artista foca ainda mais o olhar sobre ele. O objeto ilumina-se, numa espécie de autoconsciência. E começa a corar. Quando as coisas [e as pessoas] coram, é quando ficam mais vulneráveis, mais ternas. Tornamo-nos intensamente conscientes de nós mesmos quando coramos. A tarefa do artista é essa: fazer o mundo corar. [pausa] É o que também acontece quando nos apaixonamos. A pessoa por quem nos apaixonamos é, em simultâneo, um espelho (no qual nos revemos e revemos quão bonitos somos) e um objeto de súbita e intensa atenção.

Os fantasmas também estão sempre presentes. Tudo parece matéria espectral nos seus livros. O olhar nos espelhos. O olhar dos espelhos. As casas onde se viveu na infância e onde quase todos os protagonistas teimam em voltar. Os mortos na família, mesmo que seja (e quase sempre é) para se reafirmar que se lhes teve pouco amor. Os próprios objetos quotidianos e os elementos atmosféricos. Todos os seus protagonistas são investigados enquanto vestígios espectrais. Ao mesmo tempo, simetricamente, tudo isto é mostrado como se fosse a única coisa que importa e que, se não está viva, representa o lado mais vivo de quem delas fala. Porquê?

É uma excelente pergunta. [pausa] Não sei se sei responder-lhe. Tenho de pensar um bocado. [pausa longa] Pensamos que conhecemos os seres humanos, pensamos que conhecemos o mundo, mas só vemos a superfície. Como disse Nietzsche, é na superfície que encontramos a verdadeira profundidade. Isso é verdade, até certo ponto. Podemos viver com uma pessoa durante cinquenta anos e, um belo dia, sermos surpreendido por algo que ela diz, forçando-nos a rever tudo até então. Não deixa de ser fantástico descobrirmos, assim, uma nova pessoa. Conhece aquela sensação estranha que sentimos quando, como os linguistas identificaram, o significante vagueia liberto do significado? Por exemplo, pensamos na palavra “cavalo” e, de repente, é só um som, sem qualquer ligao﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽gnificado liberto do significante», mundo. Mas sção com o animal de quatro patas. O mesmo pode acontecer com as pessoas. E, então, perante essa estranheza, nós pensamos também: este não sou eu. 

Porque é assim que nós lidamos com o mundo: transformamo-lo em nós mesmos.
 
Como num espelho?
Sim, mas tudo o que está à nossa volta tem de estar refletido em nós. E, de vez em quando, estranhamos e estranhamo-nos: “Este não sou eu!” Como a criança, quando descobre que não existe só ela (e, talvez, a mãe dela) no mundo. É nesse momento que surge a autoconsciência humana. Porque, se o mundo me é estranho e eu não consigo abarcá-lo todo, então, um dia, o mundo pode querer expelir-me. Lembro-me perfeitamente de quando, em criança, me dei conta disto. Tentava por tudo não adormecer à noite, com medo de morrer. Nunca me deitava apoiado neste lado [esquerdo], porque estava convencido de que, se o fizesse, sentiria o meu coração a parar. 
 

Por falar em fantasmas de nós mesmos, quem é o Quirke [patologista irlandês que protagoniza sete dos nove romances policiais que, desde 2006, Banville escreveu sob o pseudónimo de Benjamin Black; em 2014, Andrew Davies e Conor Mc Pherson adaptaram as ficções de Quirke para uma série televisiva da BBC, com Gabriel Byrne no papel principal]?

Não sei.

Quirke é um espelho de Benjamin Black?

Não. Também não sei quem é o Benjamin Black. É frequente, em conversa, misturá-los aos dois, sem querer. De algum modo, eles são a mesma pessoa. Uma pessoa completamente diferente de mim…

… ou não.

Diria antes: completamente não eu. Mas, na verdade, o John Banville também nãoao existe﷽rdade, o John Banville tambrente de mim. Mas, o meu coraçundo. Mas sãoão existe. O que existe sou eu, um cidadão, que anda no mundo, que vota, que tenta ganhar a vida, que, frequentemente, faz figuras tristes. Quando me levanto da minha secretária, aquela pessoa que escreve os livros deixa de existir.

Como é que passa, consistentemente, da escrita de Banville para a de Black?

Não é difícil, acredite. Durante trinta e cinco anos, fui jornalista. Escrevia para jornais diários, por isso trabalhava à noite. Passava os dias a escrever [ficção] e, à noite, voltava à minha forma humana, ia para a redação e tornava-me uma outra pessoa. Nós pensamos que somos seres singulares, mas isso não passa de uma ilusão, que nos ficou talvez da concepção religiosa de “alma”. Dentro de nós, existe uma luz, que brilha permanentemente.

A cada dia, morrem e nascem milhões de células dentro de cada um de nós.

Refazemo-nos a cada minuto. E somos diferentes pessoas a cada circunstância. Deus nos livre de sermos singulares!

John Banville criou e tem uma voz literária singular.

Sim, mas sabe o que estou a fazer agora? Estou a escrever a segunda parte de Retrato de uma Senhora, de Henry James. Quem diria, hã? É uma direção totalmente nova. E é um fenómeno bastante estranho