Imre Kertész | Eu é outro



Dizem-nos que os pássaros não cantam no que foi o campo de concentração de Auschwitz. Mas a verdade – e, sim, cantam – só pode ser confirmada in loco, no mais veemente museu-testemunho da barbárie humana. Em Um Outro: Crónica de Uma Metamorfose (1997), diário ficcional do judeu húngaro Imre Kertész entre 1991 e 1995, o escritor, Prémio Nobel da Literatura em 2002, alerta: «Já notaram que, neste século (o XX), tudo se tornou mais verdadeiro, e ele mesmo mais verdadeiro? O soldado tornou-se um assassino profissional; a política, delinquência; o capital, fábrica para destruir os homens, equipada com fornos crematórios; a lei, regra de um jogo de patetas; a liberdade universal, prisão dos povos; o anti-semitismo, Auschwitz; o sentimento nacional, genocídio.» Para quem, como Kertész, viveu a experiência-limite de um campo de concentração, impôs-se a «violência de um imperativo imediato de fazer os ‘outros’ participarem» (Primo Levi). Nessa luta por testemunhar, tornou-se evidente a ineficácia da linguagem para dizer a ‘verdade’, já que o relato bruto da realidade pode provocar um efeito de ficção. Desde o primeiro romance, Sem Destino (terminado em 1965, publicado numa edição limitada dez anos depois), Kertész rendeu-se à criação literária como metáfora de ‘quase-verdade’.

Kértesz recusa os seus livros como autobiográficos. No entanto, é o seu fantasma real que habita todos os enredos e personagens, sobretudo o possível alter ego, György Köves. O essencial da ‘verdade ficcionada’ está todo na trilogia Sem Destino, A Recusa (1988) e Kaddish Para uma Criança Que Não Vai Nascer (1990), editada pela Presença. Os dados biográficos dizem-nos que, em 1944, com 15 anos, Kertész foi deportado para Auschwitz, e, dali, para Buchenwald. Após a libertação, regressou à Hungria, trabalhou como jornalista e serviu no exército, até 1953, quando optou em exclusivo pela escrita. Durante o Regime Comunista, sobreviveu num apartamento de uma assoalhada em Budapeste, graças à venda de traduções e peças de teatro, criando a sua obra em segredo e sem audiência. Um Outro: Crónica de Uma Metamorfose é mais um contributo do seu excepcional questionamento sobre a condição humana e a Europa. Um texto na primeira pessoa, escrito depois dos 70 anos, por alguém que ainda ‘é’ apenas porque conseguiu tornar-se «um outro».

Um Outro: Crónica de Uma Metamorfose, Imre Kertész, Editorial Presença, 102 págs.

SOL/ 19-06-2009

© Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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