Entrevista | António Mega Ferreira



A propósito do lançamento do conjunto de ensaios bio-bibliográficos O Essencial sobre Dante, o escritor António Mega Ferreira fala sobre a sua paixão pelo poeta italiano e pela Divina Comédia, e, inevitavelmente, sobre a sua atração fervorosa por Itália. O que colhemos ainda como herança daquele país? Como caracterizá-lo? Segue-se uma longa conversa, em resposta a estas e outras questões sobre a realidade passada e atual de Itália, a cultura italiana, Dante à cabeça, e os exercícios de reconhecimento necessários para delas nos aproximarmos, com um outro olhar.

Quando visitou a Itália pela primeira vez?

Em 1978, com 28 anos. Aterrei em Roma e fui diretamente para a Via dei Portoghesi, onde fiquei alojado, em casa de um amigo então em missão diplomática, José Sasportes. A primeira impressão da cidade foi muito forte. Desde então, viajei por várias vezes, pelas várias Itálias, mas sempre com especial enfoque em Roma, que é uma cidade completamente prodigiosa; em 2002, fiquei lá durante um mês [estadia que deu origem a Roma: exercícios de reconhecimento, espécie de guia intelectual e artístico para uma visita à cidade].

O que mais o impressionou nesse primeiro contacto com Roma?

Um certo caos urbano, com uma sedução irresistível. Havia uma certa desordem organizada na vida daquela cidade e dos romanos que me fascinou de imediato. E, depois, ao virar de cada esquina, havia sempre qualquer coisa de extraordinário para ver, e isso em camadas sobrepostas de estratos deixados por diversas épocas históricas e culturais. Antes de mais, os vestígios do Império Romano, no que podemos imaginar ter sido o seu apogeu. Depois, a Roma cristã, sede da consagração de um culto hoje duplamente milenar. Enfim, o enorme espectáculo de Roma barroca, que vai desde os sinais deixados por Bernini um pouco por toda a parte, sobretudo no centro, até um barroquismo da encenação, muito marcado pelo chamado barroco romano, com o seu auge no séc. XVII.

Em Lisboa, essa sobreposição é feita de volumes arquitectónicos, em perspectiva. Em Roma, é uma sobreposição de raízes…

Sim, é uma sobreposição diferente, porque é orgânica. O paradigma disso é o Teatro di Marcello, que me impressionou logo na primeira viagem: um anfiteatro romano, construído no tempo de Augusto (séc. I a. C.), que foi sendo organicamente reutilizado ao longo das épocas, de tal forma que, hoje em dia, alberga apartamentos de habitação e espaços para escritórios. De facto, a cidade foi-se construindo organicamente, desentranhando-se das formas passadas, reutilizando o antigo, acumulando e sobrepondo. Outra ruína marcante é o Mercado de Trajano, que nos diz mais sobre a maneira de viver dos romanos do que muitos livros de história; é só saber ler o que lá está, saber visitá-lo. No apogeu do Império, o Mercado de Trajano era um verdadeiro shopping center, um símbolo do cosmopolitismo de Roma.

Roma, a cosmopolita. Roma, a decadente. É muito misteriosa essa conjugação de opostos que ainda hoje caracteriza também a realidade e a cultura italianas. Na primeira vez que conduzi em Itália, dei logo de caras com um carro em contramão. [risos] E o mais espantoso é que os italianos são capazes de andar em sentido contrário, não respeitam os sinais ou os peões, mas raramente buzinam em protesto pela condução dos outros.

Há uma organização no caos, uma convenção tácita que permite que as coisas fluam. Esse aspecto impressionou-me muito desde o início e é muito sedutor. Gosto muito pouco das coisas assépticas.

Embora, em Itália, o ideal da harmonia esteja sempre presente.

É verdade. Mas a suprema harmonia pode ser encontrada através das dissonâncias, como sabemos desde Mozart, com o seu célebre quarteto nº 19 em Dó maior.


O visitante que chega a Florença de carro pode comprová-lo quando, após quilómetros e quilómetros de paisagem suburbana feíssima, estaciona, caminha até ao centro histórico e chega, por fim, à apoteótica Piazza della Signoria.

Circundando Florença, perdemo-nos de viaduto para viaduto e vamos parar ao meio de coisa nenhuma, onde, apesar de tudo, surgem uns ciprestes de vez em quando, a lembrar-nos de que estamos na Toscana. Mas, é verdade, o que nós conhecemos das grandes cidades é sempre o centro histórico e monumental, o seu verdadeiro cartão de visita.

No centro de Florença, ainda é possível sofrermos do síndroma de Stendhal [desordem psicossomática provocada pelo contacto com uma obra artística; Stendhal sentiu-a quando visitou pela primeira vez a Galeria degli Uffizi]?

É possível senti-lo, tão esmagadora é a presença de obras de arte únicas. Mas há que fazer um exercício prévio de purificação. Há que colocar um filtro: não olhar para os turistas, não ver as mulheres gordas, os homens barrigudos, as crianças malcriadas… Não ver! E seguir diretamente para os Uffizi. Depois, ninguém pode ir lá pela primeira vez e pôr-se na fila para ir ver toda as salas do museu, não faz sentido; há que escolher o que se quer ver, como intróito a visitas futuras. Da última vez que lá estive, fui direto aos quadros de Fra Filippo Lippi e do filho, Filippino Lippi, que pude apreciar com tempo, até porque estava pouca gente naquelas salas. A incomparável Madonna de Lippi pai dá vertigens… Mas esta é a única possibilidade hoje em dia de ainda se ‘desmaiar esteticamente’ numa cidade como Florença, que, entretanto, foi invadida pelos turistas. Por exemplo, quase ninguém vai ver a prodigiosa basílica de San Miniato al Monte, situada lá no topo, visível da margem do Arno… Já Stendhal o dizia: há coisas que estão reservadas para uns happy few.

Para a elite italiana, a herança cultural é mais forte do que o dinheiro ou o apelo da moda?

Por ser imemorialmente mais rica, a elite italiana é mais culta e estilizada. Quando se chega ao palácio de uma principessa qualquer, no norte, que tem vinte e tal quadros de um mesmo pintor e vive no meio deles, percebe-se que, inevitavelmente, isso é gerador de cultura.

E de diferença social.

Claro. A Itália é um país ferozmente desigual; onde a igualdade será sempre aparente e não mais do que aparente. Há que admitir que, ali, ao longo dos séculos, a riqueza, o património, a arte, a cultura, a arquitectura, geraram produtos de beleza absolutamente incomparáveis. Conto-lhe uma história curiosa. Há muitos anos, uns vinte, houve uma discussão extraordinária, durante a Feira do Livro de Frankfurt, entre um deputado social-democrata alemão e José Saramago. A certa altura, o deputado começou a falar contra os Papas, os papistas e a ostentação do poder do Vaticano. Saramago ergueu-se…

… e imagino que do alto do seu realismo-socialista… [risos]

… apostrofou o deputado luterano: que ele não percebia nada, que, se não tivesse havido os papas, não teríamos tido o Renascimento, não teríamos as obras de arte barrocas, não teríamos isto e aquilo, e que, apesar de tudo, o cristianismo legou à Humanidade coisas que o luteranismo não foi capaz de legar. Chapeau! Porque há que reconhecer que o facto de a Itália ser extraordinária é fruto da enorme desigualdade que sempre marcou a sua história.

A Itália, na verdade, é um país muito recente: data do século XIX.  Durante grande parte da sua história pós-romana, foi um espaço fragmentado em vários reinos e cidades-Estado.

A partir do final do séc. X, a Itália sofreu a enorme influência do movimento comunal, o que não foi fenómeno único na Europa, mas que, ali, foi vivido com especial intensidade, alastrando-se como mancha de óleo e arrastando-se por séculos. Na realidade, quando chegamos ao século XII, a Itália do centro e do norte é uma miríade de cidades-Estado. A cidade era o que estava intra-muros, dentro das fortificações próprias das cidades medievais, e o seu ‘contado’ eram os campos que pertenciam à administração da cidade e de onde lhe vinham as vitualhas. Muitas vezes, o contado não era mais do que meia dúzia de quilómetros em redor da cidade. Assim florescem, ao mesmo tempo, na Idade Média, Florença, Siena, a 50 quilómetros, ou Prato, a apenas 19 quilómetros. Havia muitas micro-cidades-Estado, que eram autónomas, soberanas, e que, na maior parte dos casos, cunharam moeda própria, até à invenção do florim. Por exemplo, durante um curto período no séc. XIII, Mântua teve uma moeda própria, com a efígie do poeta latino Virgílio, natural da cidade. Outro dado importantíssimo: cada cidade-Estado falava o seu dialecto próprio. Dante analisou esses dialectos, sobretudo os do norte, e escreveu o tratado De vulgari eloquentia, onde questionava o porquê de cidades completamente contíguas terem dialectos diferentes. Aí nasceu o projecto que ele, modestamente, se propôs construir e que o levou a escrever a Divina Comédia em vernáculo: criar uma língua literária a partir do vulgar, compreensível por aquela gente toda e que, sobretudo, servisse uma expressão literária uniformizada.

Dante conseguiu-o, mas os dialectos persistem e, genericamente, os italianos são bilingues. Essa composição medieval pulverizada explica a rivalidade que persiste ainda hoje entre várias cidades italianas?

Sim, esse ADN mantém-se até à actualidade. Os regionalismos, os particularismos de cidade contra cidade — Lucca contra Pistoia, Florença contra Siena… — mantêm-se no norte e, com particular fulgurância, no centro de Itália. Porque, atenção, não existe uma identidade italiana, existem identidades italianas.

Aliás, o António defende, em Itália, Práticas de Viagem (2017, Sextante), que Dante foi apanhado no auge do embate entre a Igreja e o Império, com Florença por epicentro, e que é por isso que ele jamais teria entendido a paixão unificadora e centralizadora que levou à criação do Reino de Itália, em 1861.

A paisagem política italiana era atomizada. Mas Dante achava que Florença era o centro do universo italiano. Daí que existam diversas passagens na Divina Comédia em que ele diz pessimamente de outras cidades, sobretudo de Siena. A ideia de nação, propriamente dita, não existe no final do séc. XIII, início do séc. XIV, o tempo de Dante. Ele nunca teria entendido a paixão do Risorgimento, impulsionada pelas elites e depois adoptada pelo povo, através de alguns meios de unificação, como o orgulho pela ancestralidade imperial (segundo Dante, a Itália era “o jardim do Império”), a reivindicação dessa herança imperial, o poema de Dante e a língua italiana (surgida a partir do dialecto toscano) ou a música de Verdi.

Num referendo recente sobre a autonomia das regiões italianas, 95% dos votantes na Lombardia e em Veneto votaram a favor. É compreensível, porque são as duas regiões mais ricas do país: Milão contribui anualmente com 20% do PIB italiano, Veneza com 10%. A desigualdade norte-sul continua a ser gritante e justifica os desejos de autonomia e, até, nalguns casos, de independência de algumas regiões.

É simples: as regiões mais ricas e mais estruturadas, a norte, não querem participar no esforço económico do resto da Itália. O Mezzogiorno [sul] é paupérrimo. A Sicília poderia ser rica, mas não é. Nápoles é a segunda maior cidade italiana, mas, aí, o caos é menos organizado ou, melhor, é organizado por redes subterrâneas. Veja-se a célebre tentativa abortada de racionalização da gestão dos lixos de Nápoles, de que se falou tanto há cerca de dez anos.

O poder da Camorra e dos reis do lixo na Campânia ficou bem claro nessa altura e é uma excelente metáfora dos meandros sujos da governação de Itália.

Escrevi então uma crónica exactamente nesse sentido. O caso tornou-se ainda mais espantoso quando a Suíça se ofereceu para receber os lixos de Nápoles, o que achei de extraordinária ironia: o norte acabar por acolher os lixos do sul…

Um dos momentos altos de Il Divo, o filme de Paolo Sorrentino sobre a arte da política italiana, personificada na figura de Giulio Andreotti [sete vezes primeiro-ministro, oito vezes ministro da Defesa, cinco vezes ministro dos Negócios Estrangeiros e, por fim, senador vitalício] é quando este abraça e beija Toto Riina, a «Fera», o «chefe dos chefes» da Cosa Nostra. Riina, preso em 1993, mandante de, pelo menos, 150 assassinatos e condenado com 26 penas de prisão perpétua, faleceu a 17 de novembro último, com 86 anos. Apesar da sua morte, não se espera que algo mude na Mafia italiana, pois não?

Jamais. São realidades historicamente enraizadas. Em Itália, são essas redes mais ou menos subterrâneas, que vão permitindo que aquilo vá andando… É isso: a Itália é um país que vai andando.

Houve 65 governos desde a implantação da República, em 1946. A política italiana é compreensível para quem não é italiano?

Dificilmente. É possível compreender-se as grandes linhas institucionais, as opções afetivo-partidárias de fundo, a estrutura dominante composta por essas redes subterrâneas, mas, por outro lado, nem os próprios italianos conhecem a sua verdadeira extensão. Creio que nem os próprios que estão dentro das redes conseguem vê-las com clareza. O caso da recolha do lixo de Nápoles demonstrou-o, revelando um negócio que se tornou uma arma poderosíssima, inteiramente nas mãos da Camorra. A imagem projectada pela Itália para o exterior é de estagnação; porém, a Itália vai andando, à custa desses braços ocultos que a vão suportando e empurrando e do dinamismo daquilo a que podemos chamar sociedade civil.


Matteo Renzi, o anterior primeiro-ministro, ex-presidente da Câmara de Florença, líder do Partido Democrático, propôs um referendo constitucional em 2016, e perdeu-o, o que o levou a demitir-se. Um dos lemas que defendia era: “A Itália não pode ser um país-museu, tem de ser um país-laboratório.” Quer comentar?

Para muitos, as mudanças na Constituição pretendidas por Renzi enquadravam-se na melhor tradição dos tiranos italianos. Através de uma mudança de estatuto do Senado, cuja composição seria decidida pelo PM (o que é impensável num sistema democrático electivo), ele tornar-se-ia um verdadeiro Signore, com todo o poder. Já havia o “prémio da maioria”, cuja ideia constitucional não é disparatada, no sentido de contrariar a instabilidade política [o partido que vencesse uma eleição com mais de 40%, teria automaticamente um prémio que lhe garantisse a maioria ou, então, ele seria disputado numa segunda volta entre as duas formações mais votadas], mas que, mesmo assim, não garantia a governabilidade.

O afastamento de Renzi permitiu, por exemplo, que o governo da região autónoma da Sícilia tenha sido recentemente conquistado por Nello Musumeci, o líder de um partido pós-fascista, apoiado por Berlusconi e a quem os próprios partidários chamam «fascista perbene» (um fascista como deve ser)…

Sempre que o Partido Democrático desce, a direita sobe e lá vem outra vez aquele indivíduo inenarrável, que parece ter sete vidas…

D.H. Lawrence, que conheceu muito bem o país, diz, em Crespúsculo em Itália: “[Ali], a mente subjuga-se aos sentidos. Como num gato, há subtileza e beleza e a dignidade das trevas. Mas o lume é frio, como nos olhos de um gato, é um lume verde. É fluido, eléctrico. […] Há o eu, sempre o eu. E a mente fica submersa, subjugada. Os sentidos, porém, mostram-se magnificamente arrogantes.”

Bom, o Lawrence escorrega sempre para o lirismo, por vezes despropositado… Mas essa metáfora do felino aplica-se bastante bem a Itália. Trata-se de uma nação felina, com imensa agilidade e uma enorme capacidade de cair de muito alto, em cima das patas.

Já falámos da língua, do pasticcio [imbróglio] político e das redes subterrâneas. Para além disso, o que é que unifica a Itália? O sentido canónico da beleza ocidental?

Não. O mais forte elemento da identidade nacional italiana é a consciência de que eles são melhores do que os outros. É a auto-confiança italiana que torna a Itália italiana. Visto do exterior, isto redunda em arrogância, mas só isso explica que a eliminação da Itália do Campeonato do Mundo de Futebol seja vivida como uma tragédia nacional.

E perder logo para a Suécia!

 [risos]

Com a Espanha e a Alemanha, eles já estão habituados a perder. Agora, perderem com a Suécia é verdadeiramente terrível e fere a identidade nacional. Porque os italianos são os melhores do mundo! Há uma anedota que explica isto. Em 1756, Casanova [a quem António Mega Ferreira dedicou a ficção Cartas de Casanova, Sextante, 2013] evade-se da prisão dos Piombi, em Veneza, e desagua em Paris. Uma noite, é levado à Opera e é apresentado a Madame Pompadour, que é a favorita do rei, Luís XV…

E que é uma boneca.

Sim, e a boneca pergunta-lhe: “E então, senhor Casanova, como é que estão as coisas lá-bas, em Veneza?” Ele responde: “Madame, Venise n’est pas là-bas, Venise est là-haut.” É isto: os italianos estão sempre por cima.

Daí que um dos conselhos que os próprios dão com frequência aos turistas seja: nunca seja simpático, não deixe passar ninguém à frente, se não vai ser tomado por parvo. Na verdade, a exuberância sonora dos italianos disfarça muito bem a sua pouquíssima abertura para os outros, certo?

Essa exuberância existe, mas é só entre eles. Aliás, admito que ela acaba por intimidar o visitante. Confesso que, hoje em dia, depois de ter estado tantas vezes em itália, já não sinto isso. Mas esse sentimento de soberba, de superioridade sobre os outros, acaba por ser também um cimento da identidade nacional.

Mais uma vez, isso não terá a ver com a ideia da posse de um sentido canónico da beleza e da cultura?

As elites têm isso. O povo limita-se a alimentar a sua soberba com o mito da Roma imperial, do Dante, do Petrarca, do Verdi, do Manzoni, da squadra azzurra, et cetera. Mussolini bebeu nessa fonte de identificação popular. Essas heranças são como que commodities que os italianos usam para afirmar a sua superioridade, que é, historicamente, relativamente comprovável, porque, na realidade, mesmo em períodos em que não foram uma potência dominante na Europa (sobretudo porque não eram uma potência centralizada), eles eram o referente. Não por acaso, o Grand Tour era feito através dos Alpes, para ir a Itália, como bem sabemos pelo testemunho de numerosos e importantes viajantes.

Hoje em dia, a Itália tem uma das maiores taxas de desemprego jovem da Europa e a segunda maior dívida pública. A burocracia estatal é ineficiente, a tributação pesada, os gastos públicos comem metade do PIB nacional e existem altíssimos níveis de corrupção política. Orgulham-se de quê?

Orgulham-se da sua ideia de Itália, mais do que das realidades. Mas, apesar de tudo, a Itália é uma das seis maiores economias da União Europeia.

Porquê? Por causa do turismo?

Também. Mas não só por isso. A Itália foi, a partir do século XIX e ao longo de todo o séc. XX, uma grande potência industrial. Grande parte da indústria europeia do automóvel é de origem italiana. Ainda hoje viajamos com enorme conforto na excelente rede ferroviária italiana, em comboios de alta velocidade desenvolvidos por italianos. Eles não copiam; desenvolvem, acrescentam, inovam. Acrescentam sobretudo design; são dados a isso.

Devido a um especial sentido estético?

Os italianos têm séculos e séculos de uma cultura e de um olhar treinado para o belo e para o luxo. É uma questão de envolvência; saem à rua, nem dão por isso, mas estão permanentemente a ser impregnados pela herança cultural e pela beleza. Para mais, têm uma capacidade produtiva e inventiva extraordinária, que se estende a tudo. No campo do design, sobretudo, aquilo sai-lhes tudo melhor.

Tal qual o caffè espresso!

Ah, o café Illy! A propósito, aceita um?

[pausa curta para café bem escuro]

No documentário A Síndrome de Veneza (2013), do alemão Andreas Pichler, sobre a enorme pressão do turismo de massa sobre a cidade, há um veneziano que, ao ver as hordas de turistas a circularem numa