Eduardo Lourenço | Eros e o tempo


Desta vez, estamos no território de Eros, caminhando para a vitória do erotismo sobre o amor. Seguimos as linhas de pensamento cruzadas em cinco ensaios recentes e em três outros, datados de 1968 ou dos anos 90. Do fin de siècle e de um tal “rumor das saias de Elvira” como “romantismo recalcado” em Eça até um contemporâneo caos “sem pânico”. Passando por um texto fundamental publicado na revista O Tempo e o Modo (e logo apreendido) nos anos 60, onde problematizou o casamento indissolúvel e sacralizado em contraponto ao “ideal da imediata fraternidade amante do homem e da mulher”.

Para falar de Eros, Lourenço invoca “o mundo «do jogo e do sonho» de que o universo literário é a expressão mais acessível, pois nele o homem se vive miticamente por procuração”. Convoca-nos para o amor de “corpo vestido” em Camilo, “o mais patético e trágico dos nossos romancistas”, para os espectros da morte e da saudade em Almeida Garrett, sobretudo para “o puro Desejo e as suas múltiplas miragens” em Eça, “o mais erótico dos nossos autores”, “o ficcionista ímpar do Eros moderno”.

Para Eduardo Lourenço, a Literatura apreende “a vida como tempo”, mesmo que seja “só vida imaginária em estado puro”. Por isso, o ensaísta ilumina personagens e autores, cria reflexos, abre caminhos novos de leitura também do presente. Mestre de uma ironia fina e sagaz, força-nos a rir, dos outros ou de nós mesmos, ou apenas do tempo, reflectidos em espelhos revelados. Se não, quem mais poderia escrever algo como: “Uma história de amor são sempre três pessoas, mesmo que não exista a terceira”? E, numa única frase, iluminar o que foi, e é, na História e na Literatura, o conflito latente entre o erotismo e o cristianismo.

As Saias de Elvira, Eduardo Lourenço, Gradiva, 145 págs.

SOL/20-01-2007 © Filipa Melo (interdita reprodução integral sem autorização prévia)

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