Contos

Fios

 

— Sim, para tudo existe uma solução. No entanto, se lhe vender apenas dois metros, ficarei com trinta centímetros de sobra que não me servirão para mais nada. Já se quiser levar tudo o que resta da peça, pelo preço de desconto que lhe referi, ganharemos os dois e não haverá lugar para prejuízo — sugeriu o vendedor, enquanto os seus dedos delgados, irrequietos, continuavam a acariciar o veludo. Era um homem magro, os olhos míopes encovados na cara ossuda.

O cliente reparou na correção do discurso do vendedor, mais uma vez com agrado mas sem conseguir disfarçar um leve sorriso de ironia.

— E o que faço eu depois com os trinta centímetros de sobra? — perguntou, enquanto batia com a unha do anelar direito na madeira gasta do balcão.

— Foi o senhor quem primeiro o disse: para tudo existe uma solução...

— Ainda que esta o favoreça claramente a si, é verdade, trata-se de uma solução. Também é verdade que é da sua parte, mais do que da minha, que está o objectivo de lucro. Não deixo, no entanto, de achar injusto que seja eu quem fica a perder.

— Mas não perderá nada, garanto-lhe. O veludo é de primeiríssima qualidade, italiano; foi tecido na última oficina de manufactura de seda existente em Catanzaro, na Calábria. Conhece o senhor, por acaso, Catanzaro?

— Não.

— E a Calábria?

— Tão pouco. Nunca fui a Itália.

— E, se mal lhe pergunto, perdoando-me o senhor, com certeza, a indiscrição: qual é a sua profissão?

— Sou escritor.

— Escritor!… Tecelão, portanto — o vendedor inclinou a cabeça na direção do cliente e levantou as duas mãos com as palmas viradas para cima, enquanto abria muito os olhos, em sinal de exclamação.

— Desculpe, não percebo — disse o cliente, elevando a voz, num tom impaciente.

— Tecedor de palavras. Urdidor de fios. Maquinador de tramas. Haverá porventura profissão mais próxima da do tecelão? Ou dir-me-á que só trabalha com as palavras para reproduzir a vida que vive ou a vida que vê, sem criar com elas uma outra trama? Impossível, caro senhor. Cada linha que escreve é um tecido novo. E quanto mais batota fizer, crendo aproximar-se da realidade comezinha, das linhas da vida que todos nós conhecemos de cor, usando para tal artifícios artísticos, urdiduras criadas pela invenção do génio que acredita possuir, mais metros de tecido novo lhe saem das mãos. E o que é a língua senão um longo fio à espera de ser lançado no urdume da teia? Exatamente como eu, o senhor vende-nos tecido para nos embrulharmos em roupas novas. Nem que seja só enquanto o lemos, valha a verdade.

O cliente aclarou a garganta, como se se preparasse para retorquir. Mas não disse nada. O vendedor reparou que ele estava ligeiramente corado e que uma pequena gota de suor tremelicava sobre o seu lábio superior. Com os dedos da mão direita acariciou de novo a peça de veludo colocada sobre o balcão entre os dois. Então prosseguiu, numa voz pausada, sem pressa.

— Com certeza gosta de histórias tanto quanto aprecia os bons tecidos. Permita-me que lhe conte a seguinte.

«Mais de dois mil anos antes de Cristo, já se criava o bicho-da-seda nas casas chinesas. O seu fio havia sido descoberto antes, por volta do ano de 2640 antes de Cristo, pela bela princesa Si-Ling-Shi, mulher do imperador Hoang-Ti. Um dia, enquanto tomava chá quente no jardim do seu palácio, à sombra de uma frondosa amoreira, um casulo de bicho-da-seda caiu dentro da sua taça. Doce como a aragem que fizera tombar o casulo, a princesa não se assustou. Em vez disso, apreciou longamente a sua cor branco-amarelo brilhante e tentou depois apanhá-lo com a ponta dos dedos, fazendo-o assim desenrolar-se num fio delicado e com muitos metros de comprimento. A descoberta, que a princesa correu a anunciar às suas aias e a aperfeiçoar até conseguir formar meadas que desembaraçava e penteava com desvelo, concedeu-lhe um lugar entre as divindades do Império celeste chinês. E aqui faço uma pausa para lhe dizer que estou apenas a recorrer a uma velha trama para excitar a sua curiosidade de ouvinte. Não há melhor ardil do que uma lenda banal para o conseguir.

— Estou a ver que domina a técnica — disse o cliente, forjando um suspiro enfastiado.

— Prossigamos. Saltarei por cima da história de como os chineses, durante três milénios, teceram e esconderam o seu segredo, deixando sair do seu país apenas os fantásticos tecidos que cada vez mais povos cobiçavam.

— Desculpe.. Como? — interrompeu o cliente, colocando a mão em concha junto da orelha direita e procurando assim dar a entender que estava com dificuldade em ouvi-lo.

— Saberá, com certeza, que um decreto imperial condenava à morte por tortura aquele que o traísse… — disse com amabilidade o vendedor. E continuou a narração:

— O segredo só foi revelado ao Ocidente quando, no século sexto depois de Cristo, dois monges do Monte Athos cumpriram a missão que lhes havia sido confiada pelo imperador, regressando da China com o interior dos seus bastões de bambu repleto de casulos de bichos-da-seda. Parece que foi precisamente três séculos após esse regresso que começou a história deste veludo que temos aqui hoje diante de nós. É uma pena que não conheça Catanzaro, ou a Calábria… Pouparíamos nos pormenores, que, como ambos sabemos, são, nos teares dos maus escritores, os fios grossos com que estes acreditam conseguir disfarçar a inexistência de fios mais delicados.

«Ora, ao que tudo indica, Catanzaro foi fundada sob o domínio bizantino, não cessando de manter-se fiel a Constantinopla nem mesmo quando se encontrou subjugada pelos sarracenos. Desde o seu início, esses laços, está bem de ver, estreitavam-se provavelmente a fio de seda, chegando a acreditar-se hoje que os catanzaros precederam os sicilianos na competência da criação e tecelagem do fio de seda, que estes últimos só terão absorvido no século décimo, através  das suas ligações com os árabes. Aliás, quando, no século treze, se dá a decadência da supremacia da Sicília na comercialização da seda, Cantazaro ocupa-lhe o lugar com facilidade. Esta terra aonde acorrem tantos mercadores, chega, portanto, à Idade Média, que de uma forma tão simples e errónea se cataloga como de trevas e obscurantismo, envolta nos mais belos tecidos, das mais belas texturas e padrões. Para muitos, ela é uma autêntica terra de Canãa.»

Faz uma pequena pausa de suspense. E prossegue:

— Já temos o nosso cenário. Componha-o o senhor com pormenores a seu bel-prazer. Não perdeu entretanto o fio à meada, não?

— Estou a segui-lo. À espera do conduto, confesso — o cliente ajeitou a franja, que lhe caía sobre a testa, com um gesto impaciente — Não conseguirá manter-me atento, se continuar a dar-me apenas o pão. Nenhuma história cativa o leitor durante muito tempo só com a narração das circunstâncias. Ele rapidamente se impacienta, à espera.

— De um fio condutor — interrompeu o vendedor, levantando até ao nível do rosto o dedo indicador direito bem esticado.

— Mas, tem-no à sua frente, caro senhor! Repare neste veludo. Procure atentar em como cada trama se cruzou com os ramos da teia de seda. Consegue distingui-los? Provavelmente não. Por isso o trabalho é tão perfeito, tal qual uma boa intriga. Regressamos à urdidura dos erros dos maus escritores: na maior parte dos casos, ela é composta por linhas e não por fios. Erro crasso, esse de embaraçar as duas significações. Tudo as separa, como o senhor muito bem sabe. Prossigamos.

«Quando, logo no século dezassete, se quis fazer o balanço da completa decadência a que chegara entretanto a produção e o comércio da seda em Catanzaro, a peste surgiu como a razão mais óbvia. Só no ano de 1668, dizimara um terço dos seus habitantes. As ruas transformaram-se então numa campa a céu aberto, esquadrinhada pelos ratos que focinhavam nos corpos esverdeados, cinzentos, pútridos. As oficinas foram queimadas. As chamas altíssimas podiam ser avistadas a quilómetros de distância. A pobreza alastrou em Catanzaro como um vírus secundário. A par da desgraça e da perda da memória de tempos tão próximos, tão áureos, perdera-se o rasto das técnicas e dos padrões dos tecelões. Ninguém já conseguia reconstituir os seus segredos. Os mercadores mudaram de rota, para Génova, a bela. 

«Acabo de lhe contar os dois metros da história que queria partilhar consigo. Restam-me apenas trinta centímetros, que sobram da trama principal. Neles está a verdadeira razão para o facto de Catanzaro de súbito se ter apagado do mapa da seda, razão essa estreitamente ligada à história desta peça de veludo que documenta com fidelidade a riqueza de Catanzaro noutros tempos. Muitos passarão sem eles, ficando-se pelo pedaço de peça que escolheram para ser cortada. Contentes, sairão à rua, envergando a sua roupa nova, no modelo desejado, aguardando elogios ao padrão ou à textura do tecido. Poucos guardarão em casa as sobras da costura, ainda menos saberão dizer, a quem lhes pergunte, a origem daquilo que vestem. São malhas estas que se tecem à medida de cada um. Fios…

O vendedor sorriu. Num gesto lento, teatral, segurou com a mão esquerda o metro de madeira depositado sobre o balcão, inclinou-se um pouco e, com a mão direita, retirou uma tesoura da gaveta aberta ao seu lado.

— Quer que corte por aqui? — segurou o tecido no limite dos dois metros, depois de o medir em silêncio.

 

— Não, obrigado, levo-o todo. 

© FM (reprodução integral interdita, sem autorização prévia da autora)

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